Peça: O colecionador de crepúsculos

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Para dar continuidade ao projeto de Formação de público, proposto pela disciplina de Artes para o 1º ano do Ensino Médio, os alunos assistiram, em junho, ao espetáculo O colecionador de crepúsculos, no auditório do Teatro Popular do SESI. O texto a seguir foi escrito por Cibele Troyano, atriz, professora de Teatro do Ensino Médio da Móbile e pesquisadora da obra do dramaturgo Vladimir Capella.

Um dos grandes prazeres da minha vida foi empreender uma deliciosa viagem pela obra de Vladimir Capella, objeto da minha dissertação de mestrado. A cada texto, uma nova ousadia. Suas fontes, as mais variadas: folclore, mitologia grega, contos de fadas, lendas medievais, literatura. Seus temas, sempre instigantes: paixão, loucura, sexualidade, velhice, preconceito, solidão, morte.

Cada montagem, uma obra-prima. Mas, é preciso dizer, cada momento de inspiração corresponde a muitas horas de trabalho. Vladimir pesquisa, lê, discute, constrói pacientemente cada história, cada personagem, cada palavra que vai compor seu texto. Tal qual um ourives com suas joias.

Depois, os cuidados com a escolha do elenco e sua preparação. Nesses seus trinta anos como encenador, pode-se dizer que Vladimir criou um significativo grupo de atores capellianos (no qual eu me incluo): aqueles que sabem que, antes de quaisquer vaidades pessoais, estão no palco integrando um time que quer contar uma boa história e trocar experiências com a plateia. Assim também ocorre com sua equipe de criação. Música, cenários, figurinos e adereços ali estão para dar unidade e clareza ao jogo com sons, cores e imagens.
Vladimir se define assim: “Eu sou o meu trabalho”.

E, realmente, é difícil separar sua vida de sua arte. Não há nenhuma ruptura entre ambas. Ele a inventa e é reinventado por ela.

Essa estreita relação entre a vida de um artista e sua obra é o tema central de O colecionador de crepúsculos. Para falar sobre isso, Vladimir focaliza a vida e a obra de Luis Câmara Cascudo. Com essa escolha, o tema se amplia. Não se trata de abordar a vida de um artista isolado, mas de alguém que se considerava “um homem igual aos outros”, que convivia com as pessoas simples de sua cidade, ouvia suas histórias, aprendia com elas, as registrava e que, por isso mesmo, se tornou um dos maiores cronistas da cultura popular brasileira, estabelecendo pontes entre o passado e o presente, preservando nossa memória coletiva, nossa oralidade, nosso modo de pensar e de ser.

Nas epígrafes de seus textos, Vladimir sempre expõe um aspecto de sua biografia que mantém estreita relação com a história a ser contada pela peça, mostrando que é de sua própria experiência de vida que ele extrai o material de sua arte. Na epígrafe de O colecionador de crepúsculos, essa relação é revelada por uma pequena frase, quase um Hai-Kai: À minha vó Albertina,/ que a gente tanto gostava/ e, mesmo assim, a morte levou. Possivelmente tenha sido ela a lhe contar as primeiras histórias. Talvez os mesmos “contos tradicionais do Brasil”.

Câmara Cascudo é a “Vó Albertina” de todos nós.

O fio condutor do espetáculo é a história de um caipira pobre e analfabeto que engana a erudita e sofisticada Morte, sua comadre, para salvar a vida de um homem muito sábio e muito querido por todo o povo do lugar: Câmara Cascudo.

As personagens do Caipira e da Morte foram extraídas do conto O compadre da morte, registrado pelo folclorista a partir do relato de um morador de Natal chamado João Monteiro. A invenção de Vladimir foi a de transformar o próprio Câmara Cascudo em uma terceira personagem do conto e assim construir, mais do que uma metáfora, uma verdadeira alegoria sobre a arte e a vida.

À trama central somam-se diversas outras, que ampliam o universo temático do texto: A menina enterrada viva retoma o conto de fadas, tão caro a Vladimir; A velha amorosa trata, com muito lirismo, do amor e do preconceito; O marido da mãe D’água discute a loucura e a perda amorosa. Em diversas cenas, há a presença de personagens-narradores: pescadores, lavadeiras, pessoas do povo que, conforme o próprio Câmara Cascudo afirmava, são as Sherazades brasileiras. Vladimir as mistura com as histórias que contam, realizando mais uma vez a simbiose entre o narrador e a narrativa, entre o épico e o dramático.

Por meio de suas personagens, o texto mostra toda a riqueza linguística da fala brasileira. Desfilam diante de nós os mais variados sotaques: “caipirês”, “gauchês”, “nordestinês”, contrastando com a linguagem culta utilizada pela Morte. Nas entrelinhas de alguns diálogos, há uma clara afirmação da superioridade da linguagem oral sobre a cultura letrada, da vida vivida sobre a erudição vazia.

Mas, se nos contos populares o diabo sempre perde, a Morte, ao contrário, sempre vence. Não será diferente na história criada por Vladimir.

Porém, é justamente a morte de um narrador que torna sua narrativa eterna. Quando ele já não pode recontar suas histórias, então elas se tornam exemplares.

Vladimir Capella faz de sua arte o contraponto da morte. Recria o passado, retoma a memória e desafia a lógica de um mundo onde prevalece a informação descartável, o consumo desenfreado, o esquecimento. Essa é a sua transgressão.

O colecionador de crepúsculos demorou sete anos para ser levado ao palco. A aparente conta de mentiroso revela algumas verdades sobre nossas políticas culturais. Mas hoje a peça está em cena. É isso que importa. Longa vida ao espetáculo! Que seja visto por muitos. Que se inscreva nas memórias e corações. Que se espalhe. E transforme.

Saiba mais sobre O colecionador de crepúsculos

Dois dedos de prosa com Câmara Cascudo

Beth Néspoli

Um homem caminha com olhos e ouvidos atentos à sabedoria popular. Tem a consciência de que o ‘causo’ mais simplório, a lenda mais conhecida ou a cantiga de roda são expressões da cultura, transportam mitos através dos tempos e revelam aspectos da condição humana. Esse homem é o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1918-1968), que ficou conhecido como folclorista, mas preferia ser chamado de professor, como se aprende no Teatro Popular do Sesi em O colecionador de crepúsculos.

Cascudo, autor de mais de 150 livros, também era fino apreciador de fins de tarde, aspecto de sua biografia que o autor e diretor Vladimir Capella valorizou nesse espetáculo. Voltado para o público infantil, com apresentações grátis aos sábados e domingos, O colecionador de crepúsculos estreia hoje com 24 atores no elenco. O texto mescla aspectos essenciais da biografia de Cascudo com histórias por ele recolhidas.

É um prazer à parte nesse espetáculo apreciar, desde a primeira cena, a forma terna como o ator Luiz Damasceno se apropria com precisão de virtuose do proseado caipira, sem caricaturas. Mesmo assumindo a criação de um ‘tipo cômico’, ele não critica, mas torna fluida a linguagem quase poética de quem fala errado, porém com lógica pertinente.

Seu personagem, extraído da narrativa O compadre da morte, que mescla elementos de alguns dos muitos contos populares sobre tentativas de enganar a morte, costura todo o espetáculo. Selma Egrei faz o papel dessa ‘comadre’ convidada, numa das primeiras cenas, a batizar o filho desse homem pobre de numerosa prole.

O amplo leque de interesses de Câmara Cascudo se traduz nesse espetáculo que mescla desde sotaques – gaúcho, nordestino, mineiro – até manifestações da cultura popular como bonecos gigantes, passando por ofícios como tocador de realejo ou amolador de facas. No palco, os atores cantam e dançam. Cenografia e figurinos, assinados por J. C. Serroni, completam a escrita cênica. “O espetáculo quer ser a um só tempo homenagem a esse grande mestre e instrumento para mostrar a riqueza da cultura nacional de maneira lúdica”, afirma Capella.

Beth Néspoli. Jornal da Tarde (http://www.jt.com.br/editorias/2009/04/25/var-1.94.12.20090425.9.1.xml)

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