O que acontece quando a criança repete o ano?

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As crises que uma repetência de ano pode causar na cabeça dos pais faz com que muitas escolas hesitem antes de reprovar uma criança. E, no entanto, há casos em que repetir o ano pode significar não só um alívio, como um fecundo recomeço na vida daquela criança. A questão é: quando e por que reprovar? Penso que jamais se deve reprovar uma criança por causa de um conteúdo específico. Porque ela vai mal em Matemática, por exemplo. Um conteúdo específico pode ser recuperado com relativa facilidade. A criança ainda não aprendeu a dividir por dois algarismos no período regular das aulas? Ora, se você der oportunidade, não será difícil para ela recuperar isso.

Para mim, a reprovação escolar tem de estar ligada à capacidade geral de aprender que a criança demonstrou naquele período de aulas. Há uma soma de dificuldades que foram se acumulando e que tornaram aquela criança incapaz de cumprir as exigências mínimas requeridas na série seguinte. A reprovação nunca acontece por fator isolado. Se você reprova uma criança na terceira série e examina seu histórico, certamente percebe que ela já teve dificuldades na alfabetização, especialmente na segunda série, quando começou a trabalhar mais com textos de Ciências e Estudos Sociais. As exigências foram aumentando ela chegou a um ponto em que era muito penoso continuar.

O resultado é uma criança desinteressada nas aulas, sempre fazendo um grande esforço para produzir respostas pouco satisfatórias. Ela mesmo não se sente bem. Começa a se comparar com as demais. Seu auto-conceito vai sendo afetado, ela se sente pior do que as outras, menos capaz, menos inteligente. E, o que é pior: os pais também vão vendo a criança desta maneira. Adianta prolongar esta situação?

Mas insisto em que a criança nunca deve ser reprovada porque vai mal numa determinada matéria, mas apenas porque seu desenvolvimento, como um todo, não está correspondendo. Em todas as classes você vai encontrar crianças que se revelam mais rápidas ou mais lentas para aprender. Essa lentidão pode ser explicada por um problema específico da criança naquele momento. Ou então ela não adquiriu direito conhecimentos que agora começam a fazer falta. Isso acontece particularmente com crianças que mudam muito de escola. A dificuldade de acompanhar a primeira série é causada, não raro, por uma alfabetização insuficiente. E aqui é bom lembrar que nem todos os métodos de alfabetização funcionam igualmente bem com todas as crianças.

Existe reprovação também por causa da própria estrutura da escola. A criança que repete, nunca repete em tudo. Ela nunca ficou o ano inteiro sem aprender nada. Nunca perdeu o ano. O problema é que a escola é dividida por séries e não áreas de conhecimento. Isso é meio injusto. Uma crianca pode ir mal em linguagem e muito bem em matemática, em desenvolvimento emocional e físico. No entanto, ela talvez seja reprovada porque não está preparada para o conjunto de exigências da próxima série. Se não houvesse este sistema de séries, tais reprovações talvez não precisassem acontecer.

Uma reprovação que, ao meu ver, deve ser evitada ao máximo é aquela que ocorre na quinta série. É uma época em que o aluno está vivendo uma passagem de idade, cheia de namoros, esportes, novos amigos. Ele tem tudo para se desorganizar um pouco e ir mal na escola. Mas isso não significa que ela não tenha capacidade para fazer a sexta série. Em vez de reprová-lo sumariamente, é mais aconselhável trabalhar no sentido de desenvolver sua responsabilidade e sua melhor organização no tempo. É uma fase de desorganização emocional, que é transitória, normal, e não necessariamente precisa ser punida com uma reprovação.

Infelizmente o problema da repetência escolar parece que é muito mais sério para os pais do que para as crianças em si. A primeira reação, em geral, é tirar o filho da escola. No entanto, bem conduzida, a criança aceita a repetência com muito mais naturalidade. Eu me lembro de um caso típico. Uma criança chegou à Móbile para fazer a primeira série, mas já com alguns problemas de alfabetização. Contou com muito estudo orientado, com muito atendimento psicopedagógico e, mesmo assim, chegou ao final do ano, bastante imatura em relação às outras. Não dominava a leitura, tinha dificuldades na escrita e se mostrava muito dependente da professora. Para mim, tratava-se claramente de uma criança inteligente, capaz, e que apenas precisaria de um tempo maior. Seria uma grande vantagem para ela refazer a primeira série.

Os pais eram psicólogos, os dois. A mãe aceitou o fato naturalmente. Com o pai a coisa já foi mais complicada: então a minha filha é pior do que as outras? Foi difícil explicar que ela não era pior, apenas tinha um desenvolvimento diferente do esperado para as outras crianças. O que não significa que sempre vai ser assim. Então, é melhor que ela pare, se reorganize e não necessite mais ir em frente na base do empurrão. Mas o pai insiste: é que nós andamos muito ocupados este ano; se ela for aprovada, no ano que vem a gente dá mais atenção, põe uma psicopedagoga logo no começo... Para mim, isso já é a tentativa de transformar a vida desta criança numa vida artificial. Com maneiras artificiais de enfrentar as dificuldades, sem ver direito o que elas significam. As ajudas especiais só tem sentido quando se trata de problemas especiais.

Mas o pai não se convencia. Seu argumento era o de todos: o que meu filho vai sentir ao ver todos os seus amiguinhos na outra série? Ele não vai se desinteressar definitivamente pela escola? desistir de estudar? Ora, eu penso que é o contrário que acontece. Uma criança que avança sem condições é que tende a desistir. Especialmente se for reprovada lá adiante, na sexta, sétima série. A repetição no momento certo só pode ser útil.

Bem, o fato é que o pai enfim se convenceu, a criança foi reprovada, mantida na escola - e hoje é outra criança! O pai mesmo veio nos cumprimentar. Ela não precisa mais ficar horas estudando. Diz que agora, sim, gosta muito da escola. A escola, na verdade, não mudou. Ela é que agora acompanha bem as aulas e se sente igual às colegas. Está hoje na terceira série, não teve mais nenhuma dificuldade séria. Simplesmente ela tinha um problema de alfabetização e precisava de mais tempo. Só isso.

Agora, há crianças que, definitivamente, revelam um ritmo de aprendizagem mais lento. Estas necessitam de escolas especiais, cuja estrutura preveja este ritmo mais lento. Infelizmente, existem poucas escolas assim. E não se pode confudir capacidade mais lenta de aprendizagem com deficiência mental. São dois casos - e dois tratamentos - completamente diferentes.

Embora a educação seja uma área tão decisiva no desenvolvimento do filho, raramente ela é assumida pelo pai e pela mãe. Principalmente durante a pré-escola e o primeiro grau, a educação corre por conta da mãe. Surge um problema escolar e a gente logo telefona para a mãe. Mesmo ao educador, jamais ocorre telefonar para o pai, para o trabalho do pai. Nas reuniões de pais, a proporção é de 20 mães para 2 pais. Isso só aumenta os equívocos na hora de uma reprovação.

No ano passado, tivemos de reprovar uma criança. Era um desses alunos que, repetindo um ano, ia certamente trabalhar melhor para o resto da vida. O pai veio falar comigo. Ele entrou, se apresentou e foi logo dizendo: até agora deixei a responsabilidade da educação do meu filho nas mãos da minha mulher, mas, como ela falhou, eu vou tomar as rédeas das coisas. Quer dizer, quando você reprova uma criança, de certa forma está reprovando a mãe daquela criança. O que não é justo.

Outros pais têm um acesso de raiva e resolvem bater no moleque, cortar as brincadeiras. É muito difícil eles entenderem que, às vezes, a realidade é mais simples. Que as crianças têm diferentes ritmos de desenvolvimento. Que não estão absolutamente perdendo tempo - foram mal em Matemática e Português e estão bem em Estudos Sociais e Educação Física. Elas só precisam de mais tempo. E por que precisam? As razões são várias. A própria família está muito desestruturada e a criança não tem tranqüilidade para produzir bem. Ou naquele ano a criança está com muita atividade. O que eu noto é que a criança aceita bem a reprovação quando ela é bem explicada e trabalhada. Quando a própria família aceita, mas não aquela aceitação na base do tudo bem, não tem importância. Porque também não é para aceitar uma criança que não está produzindo bem.

Apesar de tudo, sei que é difícil para os pais. Os depoimentos neste sentido estão cheios de ressentimentos: "Eu tenho a sensação de que a escola não tinha feito tudo o que podia pelo meu filho. Penso que a avaliação está errada. Que o meu filho tinha se desenvolvido bastante naquele ano. Que ele vai ficar muito deprimido com a reprovação. Vai perder os amiguinhos, vai se sentir mal no meio de crianças mais novas que ele".

São reações altamente emocionais e compreensíveis. Discutível é a atitude de, na maioria das vezes, tirar a criança daquela escola. A escola, que era considerada boa durante quatro, cinco anos, de repente é a culpada. E a criança, em vez de parar e se recuperar, vai para outra escola e depois, quem sabe, para outra. É mais fácil responsabilizar a instituição do que tentar perceber que o problema pode estar na criança. E só muito raramente vai se tratar de problemas neurológicos sérios, como os de motricidade ou de linguagem. Na maioria das vezes, é apenas um acúmulo de pequenas dificuldades que, superadas num ano de repetição, vão fazer com que a criança comece a produzir melhor e seu auto-conceito melhore tremendamente. Não adianta a criança ter um certificado de 8a. série e estar completamente incapacitada. O importante não é o certificado. É o desenvolvimento real da criança. E a pergunta que faço para os pais é a seguinte: por que todo mundo tem que se desenvolver no mesmo ritmo esperado pela escola?

Maria Helena Bresser

Diretora Geral do Colégio Móbile, Doutora em Psicologia

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