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Em tempos de novas idéias pedagógicas, de
valorização da formação e do conhecimento, sempre vale a pena voltar a
refletir sobre uma pergunta fundamental: afinal, qual deve ser o
objetivo da escola no mundo atual?
Não precisamos divagar muito para chegar a uma resposta razoavelmente
precisa: em qualquer tempo ou lugar, o objetivo da escola sempre foi
formar pessoas para inserir-se no mundo de forma competente.
Mas essa idéia é apenas aparentemente simples, principal-mente se
pensarmos na crescente complexidade da sociedade humana. E se a Educação
se ocupa da vida real, é para essa complexidade que temos de olhar.
Há muitas maneiras diferentes de fazer isso. No final da década passada,
uma proposta da Unesco desenhou, de forma feliz, os quatro grandes eixos
que devem nortear a Educação.
São eles: o aprender a conhecer; o aprender a fazer, o aprender a ser
(desenvolvimento da auto-estima, a capacidade de avaliar os próprios
atos, de formular projetos de vida) e aprender a conviver (introjetar
normas e valores, perceber o outro, participar da vida coletiva).
No âmbito deste texto, vamos nos deter no aprender a conhecer.
Ensinar o aluno a conhecer é certamente uma
das primordiais funções da Educação: significa ensinar conteúdos
fundamentais para a compreensão do mundo, formar intérpretes da
realidade.
Mas como fazer isso em tempos de transformações tão avassaladoras,
tempos em que a produção do conhecimento cresce exponencial-mente? O que
ensinar, se os conhecimentos estão em constante superação?
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Chegamos ao ponto central dessa
breve reflexão: cabe à escola oferecer aos alunos, principalmente,
chaves de decifração da realidade.
Chaves de decifração são conceitos,
leis ou matrizes teóricas que permitem ler e ordenar a realidade, isto
é, mapear o real, estabelecer um quadro de referências, a partir do qual
podemos nos localizar e navegar por quaisquer situações.
Vale lembrar que conceitos são abstrações; não existem no mundo real.
Nascem da nossa capacidade de generalizar entre os elementos de uma
classe (ou categoria) e discriminar entre os elementos de classes
distintas. Há conceitos de abrangência macro, meso e micro.
Por exemplo: homem, homem branco, homem branco brasileiro.
Uma lei científica é um conceito macro. Por exemplo, Newton, quando
formula a Lei da Gravidade, permite-nos ordenar e compreender uma série
de fatos, pois descreve uma regularidade na ocorrência dos fenômenos. |
Já as matrizes teóricas são um conjunto de
princípios estruturais e/ou concepções a respeito do homem e do mundo,
que integram uma rede de conceitos.
É o caso das escolas literárias, por exemplo, que retratam valores,
processos, técnicas, visões de mundo características de determinado
período ou determinada cultura.
Ao professor cabe, portanto, bem mais do que dominar e transmitir certos
conteúdos.
É preciso que ele saiba os conceitos fundamentais de sua disciplina para
torná-los inteligíveis aos alunos.
Na História, periodização é um conceito fundamental.
Não basta saber datas e eventos, mas dominar principalmente as
características estruturais distintivas de cada período. Assim, para
entender a Idade Contemporânea, é preciso conhecer Revolução Industrial,
Estados nacionais, sistema capitalista, entre outros conceitos.
Da mesma forma, na Matemática, é fundamental que a criança saiba mais do
que operar (somar, subtrair, dividir, multiplicar, etc.); precisa
compreender bem o sistema de numeração decimal.
São chaves de decifração como essas que permitirão aos alunos seguirem
aprendendo, por mais que os cenários se transformem, por mais que novas
visões surjam. Assim, como viajantes do século XXI, terão uma nave
segura e referenciais precisos para navegar por mares ainda
desconhecidos.
Maria Helena Bresser é diretora da Escola
Móbile e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo.
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