Lição de casa -- Relato de uma pesquisa de opinião

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Em novembro de 1995, em uma reunião com pais da 4ª série, aconteceu uma polêmica sobre a quantidade de lição de casa que as crianças deveriam ter. Alguns pais achavam que devíamos dar mais lição de casa, enquanto outros achavam que estava bem como a Móbile vinha procedendo. De certa forma, esta é uma polêmica que se repete sempre, na Móbile, em outras escolas e em muitos países. Há diversos estudos feitos sobre o assunto, em várias partes do mundo. Em 1992, por exemplo, foi divulgada em Washington uma pesquisa comparativa coordenada pelo Educacional Testing Service norte-americano (ETS), que buscava medir a qualidade de ensino de escolas públicas e particulares de 20 países. Um dos itens estudados era o tempo dedicado e os instrumentos utilizados na lição de casa. Embora não caiba aqui comentar os resultados dessa pesquisa, o exemplo ilustra as justas preocupações que rodeiam este tema. Por isso, a Móbile decidiu realizar uma pesquisa de opinião sobre este assunto com todos os pais de alunos do 1o. grau. Enviamos os questionários e 50% dos pais os responderam. Os resultados são úteis para que os educadores da Móbile saibam como, de fato, os alunos desempenham essas atividades pedagógicas.

Na verdade, sabemos que um dos focos desta controvérsia é a concepção que se tem sobre o processo da aprendizagem. Esta concepção determina todos os aspectos práticos que envolvem a lição de casa. Aqueles que confundem aprendizagem com memorização valorizam a repetição de exercícios e consideram o estudante um pote vazio que precisa ser preenchido pela transferência do conhecimento do professor para o aluno. Por isso, conferem importância para a quantidade, regularidade, tipo, tempo em que deve ser feita. Afinal, o importante, conforme esse equivocado ponto de vista, é manter o aluno ocupado, exercitando-se. Se, ao contrário, considera-se a aprendizagem como um processo de construção individual de conceitos e idéias sociais, na qual a maneira de pensar do aluno, seu conhecimento prévio sobre o mundo, suas hipóteses a respeito dos diferentes assuntos são fundamentais, a quantidade de lição de casa perde importância. O relevante passa a ser a qualidade e a variabilidade das lições, como também a possibilidade de o aluno realizá-la sozinho, envolvido, estimulado pelo desafio oferecido. A lição de casa é uma oportunidade de estudo independente do aluno. É uma situação em que ele pode ter a iniciativa e realizar tarefas por si próprio, já que na classe a maior parte do tempo está trabalhando coletivamente. Na pesquisa realizada na Móbile, 95% dos pais responderam que consideram a lição de casa importante, necessária especialmente para o aluno criar hábito de estudo independente, como reflexão para rever o que foi estudado em classe. A maior parte dos pais acredita, também, que a lição não deve existir como uma atividade para ocupar o tempo do aluno em casa ou para compensar o (relativo) pouco tempo - 4 a 5 horas diárias - que se passa na Escola. Os educadores da Móbile também têm essa opinião. Mais importante do que fazer é o que o aluno está aprendendo, que conceitos e que habilidades estão sendo desenvolvidas.

Como podem ser as lições de casa

Assumindo que a escola deve preparar alunos que saibam buscar informação e articulá-la, a lição de casa tem de ser mais uma atividade para se alcançar estes objetivos. Neste sentido, os alunos devem ter experiência com várias espécies de lição, como:

para suplementar e ilustrar o trabalho feito em classe. Os alunos podem pesquisar em enciclopédias, livros, jornais falados ou escritos, CD-ROM, ou mesmo levantar a opinião de pessoas especialistas no assunto ou não;

para verificar como determinados fenômenos acontecem no dia a dia. Na sala de aula, muitas vezes o professor está impossibilitado de entrar em contato com o fenômeno. E, sabemos, educar através de princípios gerais ou idéias não é suficiente. É necessário que o aluno entenda que a compreensão desses princípios é um passo para a transformação da realidade e de sua vida. A Escola precisa estar sempre atenta para a possibilidade de participar dos acontecimentos. Esta é uma contribuição fundamental na formação de seus alunos no aspecto da consciência e sensibilidade cultural e social;

para propiciar o desenvolvimento de habilidades de registrar, interpretar e comunicar assuntos recentemente aprendidos;

para que os alunos possam opinar a respeito de um assunto, fato ou idéia. É fundamental capacitar os alunos a tecerem justificativas que sustentem seus argumentos, como também é fundamental que haja oportunidade de expressarem suas idéias, sentimentos e emoções;

para dar continuidade a algum conteúdo iniciado em sala de aula ou preparar o aluno para a aula do dia seguinte. Ler um texto em casa, para não usar este tempo na aula, faz parte deste tipo de lição. Todos estes “gêneros” de lição de casa permitem que o aluno não apenas reproduza fatos, mas desenvolva a capacidade de ler, interpretar, aplicar dados, opinar, argumentar. Mais ainda, que desenvolvam habilidades aplicadas em situações com crescente compreensão e facilidade. Este já seria resultado positivo.

Acreditamos, entretanto, que este tipo de lição de casa tenha um fim ainda mais relevante: possibilitar que o aluno contribua efetivamente para o projeto da classe ou grupo de trabalho. Dessa maneira, a lição de casa também contribui para a aprendizagem de todos, para a coletividade. Cidadania não se ensina só através de discurso. É fundamental colocar os alunos em situações em que tenham efetivamente de contribuir para atingir um objetivo coletivo. Assim, ele verá que o conhecimento não é só um pôr para dentro informação, mas é especialmente contribuir para a troca de informações, para a aprendizagem de todos. A aprendizagem é, sobretudo, compromisso de todos. Aquelas lições de casa nas quais o aluno contribui com o projeto da classe e de seu grupo de trabalho são muito interessantes pela diversidade de informações obtidas, o que não seria possível de se conseguir somente com o professor ou através do acervo de biblioteca da escola. A riqueza deste tipo de lição de casa está na socialização das informações e de suas possíveis interpretações. Esta função de lição de casa, como demonstrou a pesquisa, ainda não está tão clara para os pais.

Além dos tipos de lições de casa discutidas acima, temos também as lições de casa de caráter mais mecânico. Ninguém despreza por completo a necessidade de exercício para se aprender certos conteúdos, como decorar a tabuada, depois de ter compreendido a multiplicação. O objetivo destas lições é que o aluno memorize, decore, exercite ou treine determinado conhecimento para utilizá-lo com rapidez e eficiência. Quando se fala em exercitar não se deve esquecer de que o aluno precisa ser orientado sobre como fazer esta atividade, do porquê de sua existência, para que possa observar o seu próprio crescimento. Além disso, para que a lição de casa seja um instrumento para desenvolver a autonomia, precisa ter instruções claras e bem redigidas. Sua realização deve ser possível, levando em conta o tempo, a idade e a possibilidade dos alunos. Considerar estas variáveis entre outras é essencial para se evitar que os alunos desenvolvam atitudes indesejáveis, como copiar a lição de um amigo. Da mesma forma, a lição não pode ser fonte de angústia e conflitos familiares.

O papel dos pais

Na pesquisa, muitos pais relatam que uma vantagem da lição é informá-los sobre o que os filhos estão aprendendo. Por outro lado, há uma enorme aflição, pois eles não sabem se devem ou como podem ajudar os filhos. É fácil compreender a confusão sobre o papel dos pais em relação à lição de casa. Durante anos foi-lhes dito que qualquer interferência poderia confundir o filho, já que o método pelo qual aprenderam é diferente do usado atualmente. Isso levou os pais a não assumirem qualquer responsabilidade, o que causou alívio para alguns. Na Móbile, consideramos que a lição de casa é de responsabilidade do aluno, mas sabemos que a atitude dos pais e a maneira como educam seus filhos podem contribuir em muito para que a criança ou o jovem realizem a lição.

Os pais têm dois importantes papéis:

podem mostrar-se interessados, valorizar o conhecimento, encorajar e inspirar seus filhos a serem competentes e aprenderem mais;

podem ajudar seus filhos a desenvolverem planos de estudo e a terem um local adequado para estudar.

Diversos estudos têm enfatizado: se os pais valorizam o conhecimento e se interessam sobre a aprendizagem, os filhos aprendem mais. Imigrantes de países asiáticos, que mal falam inglês, tiveram maiores notas do que os alunos norte americanos, como demonstrou recente pesquisa. Este valorizar e se interessar é bem diferente do que um longo ou freqüente discurso sobre a importância da lição de casa e do “ir bem na escola”. Pais podem, e devem, estimular os filhos desde pequenos a se interessarem por diferentes aspectos da vida nas mais diferentes situações. Há incontáveis maneiras de se fazer isso: os assuntos conversados à mesa no jantar, uma viagem de lazer, em programas culturais (teatro, museus, cinema, ou mesmo TV), a discussão de idéias, a valorização do posicionamento do filho a respeito de um assunto. Esta relação constrói, na criança, a concepção de que aprender é estimulante e não precisa ser enfadonho ou simplesmente uma obrigação. Pais que sabem o que seus filhos estudam na escola podem ainda facilitar a generalização de como os conceitos aprendidos aparecem nos fatos do dia a dia. Assim, mais uma vez, o conhecimento será visto como uma ferramenta para interpretar o mundo.

Há outras formas pelas quais os pais também podem contribuir para que seus filhos gostem de estudar e façam a lição de casa:

não estressar crianças com acúmulo de atividades, como esportes, informática, ballet, sapateado, de maneira que sobre pouco tempo para elas brincarem ou ficarem com seus amigos;

saber que pessoas variam em habilidades e interesses, e que é prejudicial punir crianças por não fazerem aquilo que está além de suas capacidades;

evitar explicações simplistas do tipo “meu filho é preguiçoso, por isso não faz lição de casa”. Investigar as razões que levam o filho a não fazer a lição é mais estimulante. Pode-se descobrir que eles não estão em boas condições de saúde física ou psicológica;

ensinar as crianças desde pequenas a cumprirem compromissos, explicando-lhes a importância disto para se viver em sociedade. Isto também não se aprende por discurso. Nas suas ações diárias, os pais são modelo para a criança. Como os pais se comportam, por exemplo, na hora de buscar o filho na escola? O carro fica em fila dupla? Qual o comportamento do pai com o outro, com o coletivo?

Na pesquisa feita na Móbile, a maioria dos pais afirma que os filhos tiveram em 95 lição de casa todos os dias ou pelo menos quatro dias na semana. Até a 3ª série a maioria dos alunos gasta em média até 30 minutos por dia fazendo lição de casa e a partir da 5ª série este tempo aumenta para uma hora. Os pais, entretanto, desejariam que seus filhos estudassem por mais tempo, em casa. A maioria dos pais de 1ª e 2ª séries considera ideal que a criança fique estudando uma hora, e da 5ª série em diante pelo menos duas horas. A expectativa dos pais parece-nos razoável. Se a criança terminar seus deveres antes do fim do período de estudo acordado com seus pais, pode ler um livro, refazer questões de provas ou exercícios que tenham errado, ou operar um software educativo. Ou seja, este tempo deve efetivamente ser preenchido com atividades relacionadas ao aprender. Professores também podem combinar atividades com alunos para complementar o horário de estudo. Como por exemplo quando elaboram um plano de leitura individual para cada aluno, atendendo suas necessidades e interesses. Uma vez confirmado esse horário, os pais devem respeitá-lo. Não devem jamais tratar a lição como uma atividade que atrapalha a vida doméstica, mas um compromisso importante que não pode deixar de ser cumprido. Os pais ainda precisam proporcionar aos filhos um lugar adequado para estudo sossegado, iluminado e que tenha todo o material necessário para o estudo. Não importa se o lugar é uma escrivaninha luxuosa ou uma mesinha: deve estar associado com estudo. Na pesquisa, constatou-se que 95% dos alunos da Móbile tem um lugar específico para estudar, mas que apenas 60% deles o usam sistematicamente.

Por fim, os pais devem ou não ajudar seus filhos na lição de casa? A pesquisa mostrou que essa dúvida não atormenta mais os pais da escola. Quase todos os alunos da Móbile fazem a lição de casa sozinhos ou com pouca ajuda. Para os que ainda têm dúvida, a resposta se torna simples. Depende da ajuda. Se a ajuda do pai desenvolve na criança ou no jovem habilidades que lhes possibilitem trabalhar cada vez mais autonomamente, será sempre bem-vinda.

Maria Helena Bresser

Diretora Geral do Colégio Móbile, Doutora em Psicologia

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