Escolha profissional -- entrevista com Sílvio Bock

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1. Em linhas gerais, qual é a sua visão sobre a escolha profissional?

Sílvio Bock: Escolher profissão significa fazer projeto de futuro. A escolha profissional faz parte do projeto de vida de uma pessoa. Mais do que descobrir vocação, é a hora de olhar o passado (pessoal), conhecer as profissões e a realidade socio-política e econômica-cultural que dá contorno a essa decisão. É hora de decidir quem se pretende ser, o que se pretende fazer e que mundo gostaria de construir (ou seja, como intervir neste mundo que aí está).

2. O melhor caminho para o jovem na hora de escolher a profissão é pensar sobre si mesmo? Como ele deve fazer isso?

Sílvio Bock: O autoconhecimento é parte integrante do processo de escolha. Este "conhecimento de si" se dá através da reflexão do vivido. É importante assinalar que os seres humanos vivem em grupo. Assim, parar para pensar como se tem vivido nos vários grupos do qual participa (família, grupo de amizade, de lazer, de esporte, religioso, etc.), ajuda a entender como "se tem sido"; quais são "nossos" valores, habilidades e características pessoais. Isso também leva a pensar em quem se pretende ser, e a modificar aspectos dos quais não se gosta ou a desenvolver outros ainda não trabalhados.

3. As influências existem, seja de pais, amigos, professores ou testes vocacionais. Entre tantas, quais o jovem deve escutar mais?

Sílvio Bock: Se a pessoa escolher uma profissão só porque o teste vocacional apontou ou porque o pai disse ou o professor sugeriu, provavelmente a decisão será questionável. O fundamental é ouvir todas as opiniões para ter mais dados. A decisão é pessoal e nunca deveria ser transferida, o que não significa deixar de ouvir as pessoas que admiramos e respeitamos. O Nace -- Orientação Vocacional não desenvolve seu processo baseado nos testes vocacionais, procuramos desenvolver reflexão sobre os muitos aspectos envolvidos na questão para que cada um possa escolher da melhor forma possível.

4. O jovem deve se concentrar mais na escolha da profissão ou no vestibular?

Sílvio Bock: O que observamos hoje em dia é que os jovens têm se dedicado mais ao vestibular do que à escolha profissional. A idéia por trás disso é que a escolha se resolverá "um dia" e que o conhecimento exigido pelo vestibular é grande, e por isso não se deve perder tempo. Infelizmente essa concepção explica em parte o grande índice de evasão nos cursos superiores que fica por volta de 30% a 40%, conforme o curso. O vestibular é conseqüencia da escolha. Afinal, para que serve prestar vestibular se não se sabe o que se quer fazer, ou pelo menos que curso escolher?

5. A escolha da profissão com 17 anos de idade é mesmo mais difícil ou escolher é sempre difícil?

Sílvio Bock: Escolher é um atributo do ser humano -- logicamente quanto mais experiência a pessoa tiver acumulado, mais ponderada será sua decisão. A escolha de uma profissão que exige formação de nível superior acontece aos 17 ou 18 anos porque tem como requisito o término do ensino médio, que se dá exatamente nessas idades. Assim, o momento da escolha é determinado socioculturalmente e nada tem a ver com um pressuposto amadurecimento biopsicológico. A escolha mais tardia pode trazer benefícios, mas a sociedade precisa se organizar e pensar o que o jovem vai fazer enquanto isso. Mas uma coisa é certa: a escolha sempre continuará como algo difícil, porque ela não é natural.

6. O que os jovens devem levar em conta na hora da escolha? Satisfação pessoal, sucesso financeiro, mercados futuros ou tudo?

Sílvio Bock: A melhor escolha é aquela que consegue levar em consideração todos os aspectos envolvidos. Levar em consideração não significa fazer uma média, mas refletir sobre todos os aspectos para que a própria pessoa possa tomar partido. Na verdade, a questão pressupõe a discussão de valores e a resposta à questão "o que pretendo de e para minha vida" trará as balizas que serão referenciais para a decisão. Por isso, dizemos que pensar em profissão significa esboçar um projeto de vida.

7. Quais são os principais veículos ou canais de informação para quem está em processo de escolha da profissão?

Sílvio Bock: Conhecer as profissões é parte integrante do processo de decisão. Quanto mais bem informada a pessoa estiver, melhor será. Essa aquisição de conhecimento pode ser feita de várias formas, mas o mais adequado é que se faça todas, como por exemplo a leitura de manuais e guias específicos de informação profissional, como o Guia do Estudante da Editora Abril, os manuais de inscrição de vestibulares que apresentam seus cursos, entre outros. Conversar com profissionais também é interessante, ler jornais e revistas que trazem reportagens tratando direta ou indiretamente das profissões... É possível também garimpar na Internet, meio que começa a se constituir como local adequado de busca de informações. A propósito sugerimos nosso site, que elenca links interessantes na área de orientação e informação profissional: http://www.nace.com.br

8. Como os pais devem agir nesse período da vida do filho? Desde quando deve-se iniciar esse diálogo?

Sílvio Bock: Esse diálogo acontece mais cedo do que se imagina. Quando os pais escolhem o nome de seus filhos, de uma forma ou de outra estão colocando expectativas de como gostariam que fossem. Da mesma forma, a escolha de uma escola também expressa expectativas. A a família desde muito cedo joga expectativas e determina valores. A escolha profissional é um momento da vida da pessoa em que ela poderá ressignificar tais expectativas e construir seu próprios valores que podem ou não ser coincidentes com os da família. Defendemos a idéia de que os pais devem explicitar suas expectativas (e não escondê-las a título de não influenciar), preferencialmente de forma não autoritária, para que o jovem tenha mais parâmetros para tomar essa importante decisão. A escolha poderá ou não respeitar as expectativas, mas o importante é que foi dado ao jovem mais elementos para pensar na sua decisão.

9. Como os pais devem lidar com a frustração: 1ª, de quando o filho escolhe uma profissão que o desagrada; 2ª, quando o filho, depois de um ano, por exemplo, resolve largar a faculdade para tentar outro curso?

Sílvio Bock: Às vezes os pais têm dificuldade em perceber que seus filhos crescem rumo à autonomia. O que os pais podem fazer é tentar transmitir suas experiências e vivências. O momento de escolha de uma profissão por parte de um membro mexe com toda a família. Os pais se questionam quanto à escolha que fizeram, os filhos mais jovens antecipam preocupações. A dinâmica familiar e de relacionamento foi construída por longos anos e no momento da escolha muitas vezes se exacerbam. Não há receitas quanto a atitudes a tomar frente a escolha de uma profissão que desagrada. Cada família vai viver de um jeito e cada jovem vai solucionar da melhor forma possível as situações criadas. De nada adianta dizer qual seria o comportamento politicamente correto, que todos já devem imaginar qual seria.

Ninguém acha agradável largar um curso no meio. Ninguém escolhe uma profissão para depois abandoná-la. Às vezes isso acontece e nem por isso a pessoa é pior do que a outra que não largou. Abandonar um curso é uma nova escolha e tão difícil quanto a escolha que a antecedeu. A função dos pais, como já dissemos anteriormente, é explicitar suas visões para que a própria pessoa tenha mais condições de tomar uma decisão ponderada, coerente, refletida.

Sílvio Bock

Pedagogo, Diretor da NACE - Orientação Vocacional e Redação

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