Ensino Médio assiste a filme do ciclo “Cinema e Saber”

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Na antológica aula inaugural proferida por Roland Barthes no Collége de France, em janeiro de 1977, o semiólogo francês defende que somente na literatura (e em nenhuma outra forma de arte) estão articuladas três forças: a mathesis, a mimesis e a semiosis. A primeira força (mathesis) está relacionada aos saberes; nas histórias que os autores criam, estão presentes muitos dos conhecimentos que os homens acumularam. A literatura “faz girar” esses saberes (“todas as ciências estão presentes no monumento literário”). A segunda força da literatura, a mimesis, reside em seu poder de representação. A literatura é tentativa (sempre precária) de representação do real.  Em outras palavras, literatura é o real (pluridimensional) inscrito na linguagem (unidemensional). Finalmente, a semiosis – terceira força – consiste no poder que a literatura tem de jogar com os signos. O escritor precisa jogar com as palavras para seduzir seu leitor. O texto é um objeto que provoca prazer e, por isso, precisa merecer ser lido. É a qualidade desse jogo, segundo Barthes, que garante o prazer no texto. Certamente, nos romances, contos, crônicas, entre outros gêneros ligados à prosa, está presente a semiosis, esse jogo sobre o qual nos fala Barthes, mas na poesia ele aparece em toda sua plenitude. Metáforas e metonímias são jogos estabelecidos entre as palavras e os leitores. A similaridade e a contiguidade, implícitas nas figuras de linguagem, precisam ser reconhecidas e aceitas por quem lê poesia. Caso contrário não há jogo, tampouco poesia.

Um bom curso de literatura precisa levar em conta a necessidade de investigar de que maneira os conceitos gregos (barthianos) de mathesis, mimesis e semiosis atuam num texto. Esse trabalho se dá em sala de aula, todos os dias, quando os alunos recebem em suas mãos poemas, por exemplo, e precisam desvendar (tirar a venda) os mecanismos que constroem o sentido dos versos que leem. O poema é um objeto que necessita da construção de um dicionário próprio para ser lido, daí a importância do professor, que tem como tarefa ensinar os caminhos para chegar aos novos significados dos “verbetes poéticos”.

No 1º ano do Ensino Médio, os alunos, após terem passado, no Ensino Fundamental, pelas etapas que garantem a compreensão textual, são convidados a participar de um novo desafio: utilizar o filtro do tempo histórico e dos movimentos literários para investigar o texto. No 1º ao 3º ano do Ensino Médio, são inseridos os estudos relativos às estéticas literárias – do Trovadorismo português (séculos XII, XIII e parte do XIV) à literatura contemporânea.

Para dar conta da beleza e da complexidade da poesia, o professor de Estudos Literários do 1º e do 2º ano, João Jonas, além do trabalho que realiza cotidianamente com o texto, utiliza outras formas de artes. Na primeira sexta-feira de abril, ele convidou os alunos para assistirem ao filme O carteiro e o poeta. Na obra, narra-se o encontro improvável entre o inconformado Mario Renuopollo (o carteiro do título) e Pablo Neruda (o poeta). O surgimento de Neruda na vida de Mario faz com ele reinvente sua existência, atribuindo-lhe valor poético.

O filme O carteiro e o poeta integra o ciclo Cinema e Saber, em que os alunos são convidados a assistir a filmes que estabelecem diálogos diretos com os conteúdos trabalhados pelos professores em sala de aula.

Que vim fazer neste planeta?
A quem dirijo esta pergunta?

E que importância tenho eu?
no tribunal do esquecimento?

Que dirão da minha poesia?
os que não tocaram meu sangue?

Onde está o menino que fui:
anda comigo ou evaporou-se?

São algumas das perguntas poéticas feitas por Neruda em um de seus livros mais encantadores. Talvez elas sirvam de exemplo para mostrar que o trabalho de “revelar” os sentidos do texto é árduo, mas estimulante.

Leia sobre Neruda em: http://www.neruda.uchile.cl/obra/obra20poemas3.html

Clique aqui e leia as questões retiradas do Livro das perguntas, de Pablo Neruda e Isidro Ferrer.

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