Contra as drogas: educação,
prevenção, projetos de vida. |
Maria Helena Bresser*
Quando o tema é "uso de drogas", a
primeira reação é o medo. Uma profusão de pensamentos e
receios vem à cabeça dos pais, em geral misturada a posturas e
conceitos como "informar", "proibir", "reprimir",
"tratar". Não é para menos: as drogas e os muitos
males associados, como o sexo irresponsável, a Aids, a hepatite
e outras doenças, constituem um dos maiores problemas da saúde
em todo o mundo, neste novo século.
A faixa etária da iniciação dos indivíduos no mundo das
drogas progressiva e perigosamente aproxima-se do final da infância
e da pré-adolescência. Banalizados, barateados, difundidos por
uma contravenção cada vez mais estruturada e difícil de
combater, os psicotrópicos são hoje facilmente encontráveis
nas cidades. Quem os procura não precisa mais ir a pontos
conhecidos de tráfico, como favelas; basta andar à toa pelas
ruas, e possivelmente será abordado.
Diante desse quadro, é natural e necessário que os pais se
perguntem: o que devo fazer? Quando e como devo começar a evitar
que meus filhos caiam nessa armadilha?
A resposta não é óbvia, mas é surpreendente e esperançosa. Os pais devem orientar os filhos desde os primeiros anos de
vida.
Até bem pouco tempo, escolas, educadores e especialistas
trabalhavam sob a falsa idéia de que o caminho da prevenção
restringia-se à informação dos jovens sobre os perigos das
drogas e à advertência quanto às possíveis conseqüências. A
grande maioria das campanhas publicitárias antidrogas (entre
elas o cigarro, é preciso lembrar) buscava amedrontar para
inibir os adolescentes. Apesar disso, continuou aumentando o número
de usuários de maconha e cocaína, segundo levantamentos das agências
de saúde.
As pesquisas mais recentes sobre o tema comprovaram que 95% dos
adolescentes usuários conhecem os efeitos nocivos do uso de
drogas. Alguns pesquisadores até afirmam que a informação dos
efeitos das drogas leva os adolescentes a terem curiosidade e a
experimentar.
Da mesma forma, as campanhas revelaram um fator de suma importância,
que são as características próprias do mundo do adolescente: a
necessidade de transgressão de regras, de aceitação em um
grupo social e a imitação de exemplos eleitos. Da mesma forma,
o traço de onipotência, tão próprio da juventude, leva a
certezas ingênuas como "eu paro de fumar na hora em que eu
quiser".
De fato, é preciso estabelecer distinções. Muitos
experimentadores podem nunca mais repetir a incursão no mundo
das drogas ou passar a fazê-lo esporadicamente, sem conseqüências
graves. Mas uma pequena porcentagem certamente passará a usar
drogas de forma regular, no início todo fim de semana até
chegar ao consumo diário... aí, há conseqüências gravíssimas,
tais como abandono escolar, isolamento social, sexo irresponsável,
risco de doenças sexualmente transmissíveis, entre elas a
Aids e a Hepatite C e morte prematura. Hoje, estima-se que as drogas
sejam diretamente responsáveis por 40% das causas externas de óbito
na adolescência.
O grande problema é justamente que ninguém (e muito menos os
adolescentes) sabe quem entre os experiementadores serão apenas
usuários ocasionais ou quem se tornará dependente. Há indicações
claras de que, quanto mais cedo ocorre o primeiro contato,
maiores são as chances de se chegar à dependência.
Há também uma certeza cada vez mais sedimentada entre os
grandes estudiosos do tema que diz respeito diretamente à ação
dos pais e da Escola, e é justamente o tema central deste artigo.
A questão é que uma forma eficaz de prevenção é oferecer,
desde muito cedo, alternativas de prazer e felicidade às crianças
e aos jovens. Consumo de drogas está diretamente ligado à busca do
prazer, à ilusão de felicidade em um mundo difícil, competitivo,
que vende beleza, riqueza e felicidade sem limites em pílulas na
TV, no cinema, nos outdoors, nas revistas, na web.
O contrário das drogas não é a informação (ainda que
informar seja de fato imprescindível), mas o amor à vida. Fugir
das drogas não é abster-se dos prazeres da existência, mas
saber escolhê-los, é saber torná-los orgânicos em projetos sólidos
de vida, é saber que não há felicidade sem frustração, pois
a vida tem frustrações cotidianas; fugir das drogas é
construir a percepção de que cada um é inescapavelmente
responsável pelo próprio destino.
Ora, se partimos dessa premissa, que largo campo de ação (e de
esperanças) abre-se para todos nós.
Isso é Educação Preventiva. Para isso, concorrem muitas opções.
Uma delas é oferecer fontes de experiências saudáveis e de
qualidade de vida, como a arte, o esporte, o lazer rico e
diversificado, a ação social (por exemplo, de voluntariado), a
vivência ambiental, a formação de grupos equilibrados de
amigos.
Enfim, por muitos caminhos, estratégias e instrumentos,
educadores e pais devem se orientar para a formação de crianças
e jovens que tenham amor à vida, que possam construir projetos,
que aprendam a resistir, com segurança e sem desespero, às
frustrações, que tenham auto-estima e, sim, que conheçam
detalhadamente os enormes riscos associados ao consumo de drogas.
Referências
bibliográficas:
Listamos algumas leituras que podem orientar os pais sobre a
prevenção ao uso de drogas, no espírito da Educação
Preventiva. Esses estudos e livros estão na biblioteca da Móbile,
que é circulante e está aberta a pais, alunos e funcionários.
Um guia para a família, de Dartiu Xavier da Silveira e
Evelyn Doering Xavier da Silveira, Brasília, Secretaria Nacional
Antidrogas, 2000, série Diálogo, nº 1
Conversando sobre cocaína e crack, de Marcos da Costa
Leite, Brasília, Secretaria Nacional Antidrogas, 1999, série
Diálogo nº 2
Aspectos básicos de tratamento da síndrome de dependência
de substâncias psicotrópicas, de Marcos da Costa Leite,
Brasília, Secretaria Nacional Antidrogas, 1999, série Diálogo, nº 3
Crescendo sem drogas - um guia de prevenção para pais e
educadores, Associação Parceria contra Drogas, Plural
Editora e Gráfica, São Paulo
Obs.: Veja também o site do Hospital Albert Einstein, um
reconhecido centro de estudos no tema. www.einstein.br/alcooledrogas.
* Diretora Geral do Colégio Móbile, Doutora em Psicologia.
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