A inteligência, as emoções e a Educação, hoje

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Recentemente, TVs, jornais e revistas têm veiculado reportagens sobre a Inteligência Emocional, um tema que afeta a vida de todos, especialmente os que vivem, dia a dia, a Educação - como é o caso de pais e educadores.

Se você ouviu ou leu algo a respeito, é provável que isto lhe tenha despertado o interesse. É natural. De repente, parece fazer sentido que se reconheçam nos homens outras "inteligências" além da capacidade de raciocinar logicamente.

Embora este seja um assunto vital para todos os aspectos da Educação, é necessário que pais e educadores olhem essa discussão com cuidado, para não criar novos mitos, simplesmente substituindo o conceito de Quociente Intelectual pelo de Quociente Emocional.

Ambos são conceitos complementares, não contraditórios. O desenvolvimento emocional é um fator dos mais importantes para crescimento humano. Essas são as premissas básicas deste texto. Vamos falar de Educação?

A origem da discussão

A maior parte dessas recentes discussões surgiu com o livro Inteligência Emocional, escrito pelo psicólogo e jornalista norte-americano Daniel Goleman. Reunindo trabalhos científicos publicados a respeito do assunto nos últimos 20 anos, Goleman procura demonstrar que nossas possibilidades de realização na vida, no campo profissional ou pessoal, são determinadas em grande parte pela maneira com que desenvolvemos o que chama de Inteligência Emocional, ou seja, um conjunto de capacidades humanas como:

de se automotivar e persistir frente a frustações;

de controlar impulsos e adiar as gratificações;

de manter o humor e não perder a capacidade de reflexão, mesmo em situações ansiógenas (de ansiedade);

de ter e gerar empatias;

de ser otimista e manter a esperança.

Goleman chega mesmo a afirmar que 80% das chances de sucesso de um indivíduo são determinadas pelo chamado Q.E. (quociente emocional) e 20% pelo que chamamos de Q.I.

A reafirmação da importância da emoção para o desenvolvimento humano não é exatamente nova. Muitas correntes da psicologia e da pedagogia têm reconhecido e valorizado o aspecto emocional há muitos anos, e algumas escolas, como a Móbile, sempre assimilaram em seu projeto pedagógico e em seu ambiente de ensino tal princípio. Por esse motivo, há poucas semanas, a Móbile foi citada pela Veja, em reportagem sobre o assunto.

Qual é a novidade desta discussão, enfim? Há pelo menos três aspectos novos, que justificam o grande interesse do tema, hoje:

o livro de Goleman, psicólogo e jornalista, reúne muitos trabalhos científicos em uma linguagem acessível para um público não-especialista;

o reconhecimento de que as características emocionais de uma pessoa não estão predeterminadas, mas podem ser desenvolvidas através de um trabalho educativo;

e, por fim, o momento que vivemos, marcado, entre outras características, por uma nova organização do trabalho. Essa nova organização valoriza justamente a capacidade dos indivíduos de agir cooperativamente, pensar em grupo e enfrentar situações novas.

Q.I. x Q.E. ?

Sempre prevaleceu em nossa cultura as referências das capacidades cognitivas, de raciocínio, de memória conhecidas genericamente por Q.I. Essa forma de categorizar a inteligência vem sendo muito contestada. Modernamente, o conceito de Inteligências Múltiplas provoca muitas discussões.Trata-se do trabalho realizado pelo psicólogo Howard Gardner, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Gardner propõe uma nova visão da inteligência, dividindo-a em pelo menos 7 diferentes competências, que se interpenetram:

inteligência linguística;

inteligência lógico-matemática;

inteligência corporal cinestésica (capacidade de usar o próprio corpo de maneiras diferentes e hábeis);

inteligência espacial (noção de espaço e direção);

inteligência musical;

inteligência interpessoal (habilidade de compreender os outros);

inteligência intrapessoal (relacionamento consigo mesmo, autoconhecimento).

O desenvolvimento emocional é um dos aspectos das inteligências intra e interpessoais, e tem grande influência sobre o desenvolvimento das demais. Basta imaginarmos o quanto nossas relações diárias, complexas, embaralhadas, interferem em toda a nossa vida - por exemplo, nas nossas relações de trabalho e no diálogo com nossos filhos.

A Inteligência Emocional possui muitos aspectos complexos - que envolvem, por exemplo, o conhecimento bioquímico do cérebro -, cuja discussão não caberia nesta oportunidade. É importante que saibamos, porém, que o temperamento não é um dado determinado desde nosso nascimento, mas pode ser modificado e aprendido.

Para ilustrar o alcance dessa reflexão, podemos utilizar exemplos de nossas emoções mais cotidianas: a raiva, a ansiedade, a melancolia, o humor, a impulsividade, a empatia.

O conhecimento do cérebro mostra que nós temos pouco controle sobre quando ou qual emoção teremos, mas é possível controlar quanto ela durará. O problema surge quando a tristeza, a preocupação, a raiva são muito intensas e contínuas, de modo a produzir complicações, como a depressão e a ansiedade.

Das reações negativas, a raiva é a mais difícil de controlar. Após um fato desagradável (um não que recebemos ou uma fechada no trânsito), temos impulsos de raiva e vingança. É comum ouvirmos que alguém não controlou a ira e agiu impensadamente. O modo como enfrentamos situações de raiva, no entanto, pode ser trabalhado, de modo a resolver os conflitos da melhor forma.

Na educação, por exemplo, está é uma situação recorrente. Ao vermos duas crianças brigando, podemos dizer simplesmente: parem de brigar! A briga acaba, mas a raiva continua. Se as educamos para entender o que está acontecendo e para controlar seus impulsos, elas terão chance de desenvolver outros recursos para enfrentar com sucesso situações semelhantes no futuro.

Esse mesmo raciocínio pode ser aplicado à nossa forma de encarar as situações adversas, as ansiedades, as preocupações. Vale também para a questão da empatia - uma das emoções que mais positivamente influenciam o sucesso das pessoas.

São muitos os aspectos da chamada Inteligência Emocional a serem discutidos, e é importante entender que, para acompanhar o mundo, precisamos mudar também posturas cristalizadas em nossa cultura.

Isso não significa abandonar a noção de limites a necessidade do estudo e do domínio do conhecimento, fundamentais para a sociedade em que vivemos.

Garantir a transmissão desses conhecimentos, formar a consciência de cidadania são papéis fundamentais que as escolas e as famílias não deverão abandonar. Isso não nos impede de aproveitar todas as oportunidades de reflexão (como esta) para aprimorar nossos conceitos de Educação.

Refletindo sobre Educação. São Paulo: Mobile, 1 (1), março 1997.

Sugestões de leitura:

GARDNER, Howard - Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1994

GINOTT, Haim G. - Pais e filhos: novas soluções para velhos problemas. Rio de Janeiro, Ed. Bloch, 1989

GOLEMAN, Daniel - Inteligência emocional. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 1996

GOTTMAN, John e DE CLAIRE, Joan - Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos. Rio de Janeiro, Ed. Objetiva, 1997

ZAGURY, Tania - Sem padecer no paraíso: em defesa dos pais ou sobre a tirania dos filhos. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1994

Helena Samara

Diretora Pedagógica da Educação Infantil da Móbile, Psicóloga

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