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Era uma vez...
Ensino Médio
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Breno Silveira faz pré-lançamento exclusivo de filme na Móbile Afirmar que a cidade do Rio de Janeiro contém em si o paradoxo da dualidade brasileira tornou-se lugar-comum. Já se vão quase dez anos desde que Zuenir Ventura escreveu Cidade Partida (Companhia das Letras), mostrando um país pouco perplexo diante de suas mazelas: um Rio cartão-postal exuberante, carnaval rosa-magenta, de praias urbanas cênicas, azul-cobalto, com areias brancas de onde se pode contemplar um Corcovado Redentor (que lindo!) e outro Rio bastante diverso – : cinza e preto, fragmentado, esgotos a céu aberto em lugar de praias, com doses cinematográficas de armas empunhadas por crianças maltrapilhas cujas expectativas de vida alcançam índices medievais. Ironicamente, Cidade Partida (re)aparece nas mãos da personagem Nina, no filme Era uma vez..., de Breno Silveira. Nina (Vitória Frate) é moradora da Rua Vieira Souto, metro quadrado mais caro do Brasil. É ao sol de Ipanema – provavelmente protegida por filtro solar fator 60 – que ela lê a obra de Zuenir Ventura. Soa novamente como um paradoxo. Nina é rica, loura, linda e, completando o clichê, triste. Quando tira os olhos do livro que lê, ela observa surfistas bronzeados, mulheres de corpos esculturais, jovens felizes. Quando desvia seu olhar acima das páginas do livro, avista concretamente a segunda parte da obra de Ventura: a favela do Canta Galo. Nesse “recanto” que tanto serve de inspiração e mote a toda uma geração de novos cineastas, vive Dé (Thiago Martins), rapaz pobre, moreno, maltratado e, completando o clichê, triste. Inverte-se a quadrilha drummondiana e Dé apaixona-se por Nina, que se apaixona por Dé. Final feliz? Não. Numa geração “internáutica” marcada pelo distanciamento físico (muitas vezes continental), o que separa os personagens de Breno não é o aspecto geográfico, mas o social. Resgate da tradição dama/vagabundo, princesa/mendigo, Henry Higgins/Eliza Doolitle (personagens de Pigmalião, de Bernard Shaw). Num filme que dialoga com os contos de fadas (aqueles já “luteranizados” pelos irmãos Grimm), Nina e Dé enamoram-se e namoram, apesar dos olhares desaprovadores dos pais de ambos (ironicamente pelas mesmas razões). Final infeliz? Sim. Nosso filme relê contos de fadas, mas, para tristeza e dor dos protagonistas, também dialoga com o trágico Romeu e Julieta, de Shakespeare. Num evento inédito promovido pela Móbile e pela produtora Brazuca, o filme Era uma vez... foi lançado no auditório da Escola antes de sair nos cinemas de todo o país e contou com as presenças do diretor e do protagonista, o ator Thiago Martins. Ao final da projeção, alunos e professores puderam debater com os artistas presentes aspectos importantes da obra cinematográfica que viram. Emocionados, Breno e Thiago falaram sobre os bastidores do filme, a seleção dos atores, a criação do roteiro (idéia de mais de quinze anos), a trilha sonora, as expectativas e dificuldades de patrocínio. Cidade de Deus, Falcão – meninos do tráfico, Tropa de elite são alguns dos títulos de filmes cujos enredos estão centrados na discussão da tal cidade partida referida por Zuenir Ventura. Quando assistimos a um filme desse tipo, vemo-nos tentados a direcionar nossa reflexão somente para o tema da exclusão e suas devastadoras conseqüências para um “país em desenvolvimento” (eufemismo que veio substituir “país subdesenvolvido”). Restringir um filme à sua temática, entretanto, representa uma redução e talvez a Sociologia tenha mais competência para determinadas discussões. Deveríamos, antes, discutir de que maneira a linguagem cinematográfica contribui para a abordagem de qualquer elemento da realidade. De que forma um determinado corte, a opção por uma grande angular, uma panorâmica, um close, a escolha por um tipo de película, o tipo de interpretação pode contar uma boa história? Talvez nos esqueçamos um pouco disso quando assistimos a um filme. Certamente, Era uma vez..., quando for lançado oficialmente, será acusado de reforçar clichês, de cometer crimes de verossimilhança, de escorregar na linguagem, de conter cenas de violência; contudo, não poderá ser acusado de não contar uma bela e triste história de amor impossível, ao som de uma trilha sonora que resgata os poéticos sambas da velha guarda carioca, nem tampouco de não criar efeitos catárticos com seu público. Era uma vez... reafirma a força do cinema nacional, com uma produção bem cuidada, atuações emocionadas e direção firme, além de fazer pensar... Talvez isso seja cinema. |
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