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América
do Sul - ROBERTO CANDELORI
Raposa/Serra do Sol e os limites das terras indígenas
Ingrid Betancourt, um símbolo da luta contra corrupção
Autonomia de Santa Cruz
divide a Bolívia
Unida, Colômbia pede a
libertação dos reféns
O
PCC e o crime organizado
As
contradições do PT
A
Bolívia de Evo Morales
O
Brasil e a reforma política
Referendo é confirmado para outubro
Para
não esquecer Vladimir Herzog
A
polêmica Lei do Abate passa a vigorar
Dividida, a Venezuela continua com Hugo Chávez
As
vitórias do
Brasil na OMC
Brasil comanda a missão de paz no Haiti
O
Brasil e a controvérsia nuclear
O
MST e a "nova" reforma agrária
Paramilitares depõem armas na Colômbia
A
guerra política dos transgênicos
Sérgio Vieira de Mello, um cidadão do mundo
O Estatuto do
Desarmamento e o plebiscito de 2005
Os números
da Previdência no Brasil
Brasil participa
pela primeira vez de reunião do G8
Néstor
Kirchner: a nova esperança argentina
Crise põe em risco a democracia na Venezuela
IDH, o índice que
condena o Brasil
O Projeto Sivam e o
controle do espaço aéreo
Outra vez os ingleses no caminho da Argentina
O novo presidente da Colômbia pede a
participação da ONU
A política unilateral de George W. Bush contra o Brasil
Aids e a guerra de patentes com os EUA
O Brasil e o Conselho de
Segurança
O Brasil e a Operação
Condor
Chile: de Allende a Pinochet
Peru: Alberto Fujimori e o terceiro mandato
Os EUA e o
Plano Colômbia
Raposa/Serra do Sol e os limites das terras indígenas
ROBERTO CANDELORI
Reconhecida como área indígena em 1993, pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, a reserva Raposa/Serra do Sol tem 1,7 milhão de hectares. Sua demarcação foi homologada em 2005 pelo presidente Lula.
Localizada no norte de Roraima, na fronteira com a Venezuela e a Guiana, a reserva abriga cerca de 20 mil índios de cinco etnias -a maioria macuxis. Lula determinou a retirada dos ocupantes não-índios da reserva.
Desde o início do processo demarcatório, nos anos 70, ocorreram protestos de não-índios que utilizavam a região para o cultivo de arroz. Como houve resistência desses agricultores para obedecer à ordem de desocupação, foi necessária a intervenção da Polícia Federal. Alguns fazendeiros e também índios que apóiam a permanência dos arrozeiros no território resistiram à decisão de Brasília e, com o apoio do governo de Roraima, solicitaram junto ao STF (Supremo Tribunal Federal) a suspensão da operação. O STF decidiu suspender a retirada até que seja julgado o mérito da ação que contesta a legalidade da reserva.
Arrozeiros alinhados ao governo de Roraima argumentam que a economia do Estado sofrerá grande prejuízo, visto que a reserva ocupará cerca de 7% de Roraima, aumentando para mais de 40% as terras indígenas no Estado. Defendem a criação de "ilhas" que excluam as propriedades e as áreas de fronteira. Alegam ainda que a demarcação representaria um risco à soberania nacional. Como a ocupação indígena não ocorre de modo uniforme, esses vazios demográficos tornariam nossas fronteiras vulneráveis.
Aqueles que defendem a demarcação contínua recorrem à Constituição de 1988, que assegura aos índios "os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens". Afirmam que a divisão do território colocaria em risco a sobrevivência cultural dos povos indígenas.
Sob os holofotes da imprensa mundial e de uma população estimada em 480 mil índios, teve início no fim de agosto a audiência no STF. O relator, Carlos Ayres Britto, votou na defesa da causa indígena, destacando que "só a demarcação contínua atende ao que determina a Constituição". Mas o julgamento foi suspenso -um ministro pediu vistas do processo. Até o momento, o placar aponta um a zero para os macuxis. |
Ingrid Betancourt, um símbolo da luta contra corrupção
ROBERTO CANDELORI
"Sabe como é. (...) E eu não tenho nada. Seis dias atrás eu estava acorrentada a uma árvore. E agora estou livre. Estou tentando entender como vou viver daqui por diante".
(The New York Times – 11.07.2008)
Depois de seis anos e quatro meses como refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a ex-senadora e ex-candidata a presidência Ingrid Betancourt foi finalmente libertada. Resgatada pelo Exército da Colômbia numa operação que contou com a participação do serviço de inteligência dos EUA, Ingrid mobilizou a atenção mundial enquanto sofria em cativeiro nas profundezas da selva colombiana.
De família tradicional, filha de Gabriel Betancourt, ex-ministro da educação e embaixador da Colômbia na França, Ingrid estudou Ciências Políticas no Instituto de Estudos Políticos de Paris e retornou ao seu país em 1989 decidida a fazer política. Empunhando uma camisinha, candidatou-se em 1994 ao cargo de deputada defendendo a tese de que é preciso prevenir-se contra a corrupção. Dizia: "O meu nome é Ingrid Betancourt e sou candidata ao Parlamento. Acredito que a corrupção é o equivalente político da AIDS. Ofereço-lhe um preservativo para que pense em mim no dia das eleições." Polêmica, a campanha chocou muitos, mas consagrou Ingrid como a deputada mais votada do país.
Dona de um discurso cortante, Ingrid afirmou diante do Congresso colombiano que o país estava sob o comando de "um delinqüente" em referência ao então presidente Ernesto Samper (1994-1998), que foi acusado de ter sua campanha financiada pelo narcotráfico. A senadora não poupou sequer seus colegas do parlamento, afirmando que o Poder Legislativo era um clube de "ladrões e corruptos", ou mesmo "um ninho de ratos".
Mulher de espírito destemido e admirada pela sua luta implacável contra a corrupção, sofreu em 1996 um atentado atribuído aos narcotraficantes. Seu carro foi alvejado por uma rajada de metralhadora, mas Ingrid não se intimidou. Em 1998, com a mesma estratégia centrada no lema "a corrupção é a Aids da nossa sociedade, protejam-se", candidatou-se ao senado, recebendo uma votação expressiva.
Preocupada com a corrupção e o poder do narcotráfico que corroíam as estruturas do Estado, Ingrid decidiu, em 2001, candidatar-se à presidência da república. Fundou um novo partido, o Oxigênio Verde, de cunho ecológico, e acrescentou às antigas bandeiras a questão ambiental. Enquanto trabalhava na campanha, polêmica mais uma vez, pois escolheu como símbolo o Viagra, um “remédio para levantar a luta contra a corrupção”, foi seqüestrada. Na ocasião, em fevereiro de 2002, essa estratégia de marketing não lhe dava nem 1% das intenções de voto. Mas, agora conhecida mundialmente pelo martírio que lhe foi imposto pela guerrilha, seu nome surge forte na corrida pela sucessão do presidente Álvaro Uribe.
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Autonomia de Santa Cruz divide a Bolívia
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 27 de Maio
de 2008
Num enfrentamento que se
intensificou após a posse de Evo Morales (2006), o movimento
autonomista do departamento (Estado) de Santa Cruz foi às urnas
em 4 de maio para votar sobre o Estatuto de Autonomia.
Esse estatuto prevê uma maior independência do departamento de
Santa Cruz em relação ao governo central de La Paz. Entre as
propostas de mudança, destaca-se o direito de arrecadar
impostos, a criação de uma polícia regional e a formação de uma
Assembléia Legislativa, cujos membros serão eleitos pelo voto
popular.
Porta-voz dos departamentos da chamada "meia-lua" (junto com
Tarija, Beni e Pando), Santa Cruz, com uma população de cerca de
2,5 milhões de habitantes, responde hoje por mais de 30% do PIB
do país. Seu território possui 40% das terras cultiváveis e suas
exportações representam mais da metade do total do país. São
números expressivos que qualificam o Estado de Santa Cruz como o
mais próspero da Bolívia, razão pela qual reclama mais poder
político.
Esse movimento, que muitos definem como separatista, expõe uma
fratura social que coloca em risco a unidade da Bolívia. De um
lado, um país rico e próspero do "oriente", que engloba a
província de Santa Cruz. Do outro, no "ocidente" (La Paz, Oruro
e Potosi), um país pobre que concentra as suas atividades
produtivas na mineração e no cultivo da folha de coca. Nessa
região está concentrada a maior parte dos povos indígenas
(quéchuas e aimarás), cujo maior representante é o presidente
aimará Morales, o primeiro indígena a comandar o país.
De acordo com a CNE (Corte Nacional Eleitoral), embora o
resultado tenha favorecido os autonomistas -85,6% dos votos
válidos-, o referendo é ilegal. Segundo a Constituição em vigor,
as províncias não têm autoridade para convocá-lo.
Trata-se, portanto, de uma forma de pressão sobre o governo de
La Paz, num momento em que o país se prepara para referendar a
nova Constituição, aprovada em dezembro de 2007.
Para os autonomistas, trata-se de um documento baseado no
socialismo marxista, na ampliação dos direitos indígenas,
aprovado sem a presença da oposição e, portanto, sem
legitimidade. Na visão de Morales e dos membros do seu partido,
o MAS (Movimento ao Socialismo), a nova carta representa um
marco histórico.
Inaugura uma nova era na trajetória do país, pois, ao determinar
a inclusão social dos grupos indígenas, finalmente materializa
uma reparação histórica com aqueles que foram colocados à margem
nos 500 anos de história da Bolívia, desde a chegada dos
espanhóis.
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Unida, Colômbia pede a libertação dos reféns
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 19 de
Fevereiro de 2008.
Com o lema "No más secuestros/no más mentiras/no más muertes/no
más Farc", milhares de manifestantes têm protestado em Bogotá
para pedir o fim dos seqüestros e a libertação dos reféns ainda
em poder das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia.
Nas últimas semanas, forças políticas de todos os matizes,
pró-Uribe ou oposicionistas, abandonaram momentaneamente suas
divergências para dar um basta nesta situação, pedindo a
libertação imediata dos reféns.
Manifestações semelhantes ocorreram em mais de cem cidades,
inclusive em São Paulo, indicando que o mundo se mobiliza
exigindo uma solução política que resulte na libertação dos
reféns, maiores vítimas do enfrentamento histórico entre os
governos da Colômbia e os guerrilheiros das Farc.
Alinhado aos EUA, que classificam o grupo colombiano como
terrorista, o atual presidente, Álvaro Uribe, insiste em não
retomar o diálogo e continuar com sua estratégia de derrotar
militarmente a guerrilha, por meio da política denominada
"segurança democrática". No entanto, parte dos colombianos,
entre eles os familiares dos reféns, evita tecer críticas
diretas à guerrilha, optando por um discurso que pressione para
um "acordo humanitário" que conta com a ajuda do venezuelano
Hugo Chávez, um dos negociadores com as Farc.
Estima-se que nos últimos anos as Farc tenham seqüestrado mais
de 2.000 pessoas entre empresários e proprietários de terras.
Atualmente estão em poder do grupo cerca de 700 reféns, dos
quais 40 são políticos ou militares. Destaca-se entre esses a
senadora Ingrid Betancourt, ex-candidata à Presidência,
seqüestrada em 2002.
Movimento guerrilheiro de orientação marxista, que atua desde os
anos de 1960, as Farc, que na época defendiam uma plataforma
política centrada nas questões sociais, atualmente vêm reduzido
o número de simpatizantes pelo continente e também entre os
colombianos fator que reforça a convicção de que há uma recusa
definitiva à prática do seqüestro e do uso da violência como
forma legítima de ação política.
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O
PCC e o crime organizado
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 20 de
junho de 2006.
São Paulo viveu
momentos de intenso pânico, entre os dias 13 e 15 de junho,
quando as ruas da maior metrópole brasileira ficaram vazias e o
medo tomou conta da população. A responsabilidade por esse
acontecimento foi atribuída ao PCC – ou Primeiro Comando da
Capital –, uma organização criminosa que comandou essa
mega-operação do interior dos presídios em todo o Estado de São
Paulo.
A rebelião. que começou no interior dos presídios, teve início
quando a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) decidiu
transferir para o presídio de Presidente Venceslau (a 620 km de
SP) 765 detentos acusados de pertencerem à organização
criminosa, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido
como “Marcola”, considerado o líder do PCC.
Foram mais de 50 presídios rebelados em protesto contra a
decisão da SAP e, além disso, os membros do PCC que estavam em
liberdade passaram a atacar postos policiais, queimar ônibus e
espalhar o medo e o terror. Depois de três dias de confronto
foram registrados 251 ataques e mais de cem mortos.
O PCC é uma organização que nasceu no início dos anos de 1990 na
Casa de Custódia de Taubaté, presídio de segurança máxima, que
abrigava os detentos mais perigosos do Estado. As celas eram
individuais, os presos tinham duas horas de sol por dia e não
tinham direito a rádio, televisão ou visitas íntimas. O
tratamento dispensado aos detentos era “linha dura”, ou seja,
era a lei do “cano de ferro”. Revoltados com os abusos do
sistema penitenciário, os sentenciados criaram um pacto cujo
lema era: “quem ofender um de nós ofenderá a todos”.
Rapidamente, o pacto que deu origem ao PCC se espalhou pelas
prisões do Estado e inúmeros detentos passaram a ser
“batizados”, isto é, passaram a seguir os dezesseis itens do
estatuto da organização. O novo membro ou "irmão" (como são
tratados seus integrantes) se comprometia, quando conseguisse a
liberdade, a contribuir com uma quantia para ajudar os demais
detentos.
No interior dos presídios, o PCC impôs-se pelo uso de métodos
violentos e se transformou numa organização temida. Conhecido
também como partido do "15.3.3" (devido às posições das letras
"P" e "C" no alfabeto), o PCC recusa-se a cumprir as normas
estabelecidas pelas autoridades e deseja controlar e administrar
as prisões segundo suas próprias leis.
Superado o pânico, é hora de as autoridades pensarem com
equilíbrio sobre a forma mais adequada de se combater a
criminalidade. Não é executando suspeitos de pertencerem ao PCC
que lograremos a erradicação do crime organizado. Tampouco
punindo a população carcerária com maus tratos e condições pouco
dignas de sobrevivência. Afinal, como alertou-nos nesta
Folha (Folha de S. Paulo)
o autor de Memórias de um Sobrevivente que passou 31 anos
na prisão: “o ser humano faz cultura onde estiver, é de sua
natureza (...) Abandonado a si mesmo e vindo diretamente do ato
criminoso (...) só pode fazer a cultura do crime. (...) Está
preso, mas continua humano, e lutar pela sobrevivência faz parte
da condição humana”.
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As
contradições do PT
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 07 de
fevereiro de 2006.
Ao assumir o governo no dia
primeiro de janeiro de 2003, o ex-operário e líder dos
metalúrgicos do ABC (Santo André, São Bernardo e São Caetano)
Luiz Inácio Lula da Silva representou, para uma parcela
significativa dos brasileiros, a esperança de profundas
transformações no quadro social e político do país. Às vésperas
de concluir o terceiro ano de mandato, o governo do Partido dos
Trabalhadores (PT) enfrenta uma grave crise e é acusado de
distribuir recursos para os parlamentares da base aliada (“mensalão”),
além de arrecadar dinheiro “não-contabilizado” (“caixa 2”) para
saldar dívidas de campanha.
O PT surgiu em 1980, dentro do movimento sindical do ABC
paulista, com uma proposta de ruptura com um modelo controlado
historicamente pela elite brasileira. Representou a entrada na
arena política do novo sindicalismo. Como está registrado no
manifesto do partido, o PT “nasce da vontade de independência
política dos trabalhadores”, dispostos a lutar para a mudança da
ordem econômica e social.
Os movimentos grevistas do final dos anos 1970 projetaram para o
cenário nacional as novas lideranças sindicais, entre elas o
presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do
Campo, Luis Inácio da Silva, o Lula. A essas lideranças
somaram-se setores da Igreja, ex-exilados políticos, professores
e estudantes.
Desde sua origem, o PT se caracterizou como um partido de
militância, defensor da ética na política e comprometido com uma
agenda social. No parlamento, assumiu uma oposição, muitas
vezes, radical e sistemática.
Ao assumir o Palácio do Planalto, as mudanças foram ocorrendo,
mas não aquelas esperadas pelos petistas. Alianças políticas com
partidos de direita, manutenção da agenda econômica e tímidas
reformas estruturais causaram decepção aos seus militantes. E
para comprometer ainda mais a trajetória do PT, uma avalanche de
denúncias de corrupção envolve figuras históricas do partido.
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A Bolívia
de Evo Morales
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 31 de
janeiro de 2006.
Eleito em
dezembro de 2005, Evo Morales é o primeiro indígena a ocupar a
presidência da Bolívia. Representante dos Aymaras, foi eleito no
primeiro turno com 51% dos votos pelo partido MAS (Movimento ao
Socialismo). "Agora começa a nova história da Bolívia, em que se
buscará a igualdade, a justiça e a eqüidade", afirmou o novo
presidente.
Com 9 milhões de habitantes, a Bolívia é um dos países mais
pobres da América do Sul. Sua população, de maioria indígena,
está dividida entre quéchuas (30%), aymaras (25%), mestiços e
uma minoria descendente de imigrantes europeus.
Na região de Santa Cruz de la Sierra, onde predomina a elite
branca, descendentes de imigrantes europeus e libaneses e
mestiços, a Bolívia sofre com a pressão separatista. Empresários
locais temem que a ascensão de Morales resulte em medidas
desfavoráveis aos investimentos estrangeiros no país, razão pela
qual reivindicam maior autonomia em relação ao governo de La
Paz.
Morales, em campanha, prometeu nacionalizar o gás, o petróleo e
promover a revisão dos contratos de exploração. Isso preocupa o
Brasil, uma vez que a Petrobras, que passou a operar na Bolívia
nos anos de 1990, é atualmente a maior empresa do país com
investimentos em torno de US$ 1,5 bilhão. Evo Morales disse ao
presidente Lula que quer a Petrobras como "a irmã mais velha"
das empresas de energia bolivianas. “Nós necessitamos de sócios
e não de donos ou patrões”, disse Morales.
Polêmica, a questão das plantações da folha de coca terá que ser
enfrentada pelo novo presidente. Elemento essencial da cultura
indígena boliviana e matéria-prima da cocaína, o cultivo da
folha coloca o país na rota do narcotráfico internacional. O
governo norte-americano está preocupado e pressiona La Paz a
criar programas de redução das áreas de plantio. Morales, que em
sua história política foi líder dos cocaleros, afirma que “a
luta contra o narcotráfico tem de ser eficaz, e não uma desculpa
para que os EUA controlem nossos países e assentem neles bases
militares”.
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O
Brasil e a reforma política
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 20 de
setembro de 2005.
Aproveitando a
oportunidade dessa crise interminável, coloquemos em pauta a
reforma política. Como se sabe, nosso sistema eleitoral tem se
mostrado imperfeito. Principalmente em relação aos recursos
arrecadados pelos partidos para o financiamento das campanhas
que resultam no famigerado “caixa 2”, o dinheiro não declarado à
Justiça Eleitoral.
Para muitos, a solução é uma reforma política. Propõe-se o
“financiamento público de campanha”, ou seja, os recursos
recebidos pelas legendas viriam de um fundo público distribuído
aos partidos através do Tribunal Superior Eleitoral. O montante
a ser cotizado seria calculado a base de R$ 7,00 por eleitor e
repassado proporcionalmente aos partidos segundo sua
representação no Parlamento.
Fala-se também na adoção da “fidelidade partidária”. Para conter
a rotatividade dos políticos, pretende-se proibir a troca de
partidos. No novo sistema, o mandato pertencerá à legenda. Além
disso, será necessário que o político, para ser candidato por um
partido, tenha no mínimo três anos de filiação.
Para fortalecer o perfil ideológico das legendas, propõe-se o
“sistema de listas fechadas”, em que o eleitor vota apenas no
partido. Decreta-se assim o fim do voto nominal, ou seja, o voto
no candidato. A partir da reforma, o cidadão escolhe a legenda e
uma lista de candidatos apresentados pela própria agremiação
partidária.
Finalmente, para reduzir o número de partidos e dificultar a
existência das “siglas de aluguel”, propõe-se a “cláusula de
barreira”. Segundo esse dispositivo, somente conseguirá o
registro definitivo o partido que obtiver pelo menos 5% dos
votos nacionais para a Câmara dos Deputados, que devem estar
distribuídos em pelo menos 9 estados, onde o partido deve obter
2% dos votos válidos. |
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Referendo é confirmado
para outubro
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 09 de
agosto de 2005.
Cerca de 120
milhões de eleitores comparecerão às urnas no dia 23 de outubro
para responder à seguinte pergunta: "O comércio de armas de fogo
e munição deve ser proibido no Brasil?" Trata-se do referendo
popular previsto pelo Estatuto do Desarmamento, aprovado em
2003, que proíbe o comércio de armas e considera o porte ilegal
como crime inafiançável, cuja pena pode chegar a quatro anos de
prisão.
Duas frentes parlamentares foram criadas: a “Frente Pelo Direito
à Legítima Defesa” – contrária à proibição do comércio de armas
de fogo – e a “Frente Brasil sem Armas”, defensora da proibição.
Ambas participarão da campanha a ser veiculada no rádio e na
televisão, um mês antes da votação, ocupando 30 minutos diários.
Um dos argumentos usados pela “Frente Pelo Direito à Legítima
Defesa” é o de que o Estado e seu aparato de segurança são
ineficazes para garantir a segurança do cidadão; por isso,
privar o indivíduo do direito de se armar é o mesmo que
abandoná-lo à mercê dos bandidos.
A posse de uma arma como garantia de segurança transforma-se
muitas vezes, por impulso ou descontrole, no componente
essencial que conduz à fatalidade. Além disso, o número de
homicídios no país – cerca de 40 mil por ano – confirma que
cidadãos armados contribuem para o aumento da violência, alerta
a “Frente Brasil sem Armas”, defensora do Estatuto.
Obrigatório, o voto no referendo exigirá uma reflexão cuidadosa
do eleitor. Inúmeros argumentos serão levantados pelas duas
frentes durante a campanha. Caberá a cada brasileiro,
precavendo-se do inevitável apelo emocional que costuma
acompanhar essas discussões, decidir-se por aquilo que é melhor
para o Brasil.
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Para não esquecer Vladimir Herzog
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 04 de
novembro de 2004.
Corria o ano de
1975. Num cenário dominado pela Guerra Fria e pela bipolarização
político-militar, o Brasil vivia sob a ditadura militar. Na
Ásia, os comunistas decretavam o fim da Guerra do Vietnã. Sob a
presidência de Ernesto Geisel, o Brasil acabara de assinar o
acordo nuclear com a Alemanha e ensaiava os primeiros passos
rumo à flexibilização do regime.
No entanto, nos cárceres, a repressão aos militantes de
esquerda, os comunistas, ainda era intensa. Vladimir Herzog,
então diretor do departamento de jornalismo da TV Cultura de São
Paulo, fora intimado a comparecer ao DOI-Codi (Departamento de
Operações e Informações – Centro de Operações de Defesa Interna)
para prestar esclarecimentos sobre sua ligação com o PCB
(Partido Comunista Brasileiro).
Sob interrogatório, redigiu a confissão e confirmou sua
militância de esquerda. Naquela noite, 25 de outubro, em nota
oficial, o Exército declarou que o jornalista havia se
suicidado. Mobilizadas num protesto silencioso contra a
repressão, mais de 10 mil pessoas participaram do culto
ecumênico realizado na Catedral da Sé.
O assassinato de Herzog foi decisivo para a abertura política e
a democracia. Passados quase 30 anos, o caso ressurge com a
publicação de imagens de um prisioneiro político, fotografado nu
em uma cela momentos antes da sua morte. Os ânimos se exaltaram
com a nota oficial do Exército que declarou: “as medidas tomadas
pelas Forças Legais foram uma legítima resposta à violência
(...) contra aqueles que recusaram o diálogo”. Inútil a
reparação posterior, a nota reacendeu a memória do período
militar.
Soam anacrônicas e fora de lugar as palavras contidas no
comunicado do Exército. Em tempos de liberdade e de democracia,
reverberam como provocação. Afinal, como nos diz a letra de "O
Bêbado e o Equilibrista", ainda "choram Marias e Clarisses no
solo do Brasil", lembrando-nos de que a ferida continua aberta.
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A
polêmica lei do Abate passa a vigorar
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 28 de
outubro de 2004.
O decreto da Lei
do Abate, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em
julho último, entra em vigor a partir deste mês. Essa lei
permite a destruição de aviões que invadirem o espaço aéreo
brasileiro sem autorização. Segundo o ministro da Defesa, José
Viegas Filho, essa legislação tem o “objetivo de combater um
crime de alcance transnacional, o narcotráfico”. Somente o
presidente da República e o comandante da Aeronáutica podem
decidir pelo abate.
Serão considerados ilegais aviões que não comunicarem
previamente a entrada no espaço aéreo brasileiro, que não
apresentarem rota e plano de vôo e que se recusarem a atender
ordem de pouso. O “tiro de destruição” ou a ordem do abate será
precedido por uma série de procedimentos, que visam reduzir ao
máximo a margem de erro dos pilotos da Força Aérea Brasileira (FAB).
Caso fique comprovada a existência de crianças entre os
passageiros, mesmo sendo um avião do tráfico de drogas, este não
poderá ser abatido.
Críticos do projeto destacam que com a tecnologia disponível
após a implantação do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia),
em 2002, é possível escoltar os aviões em vôo irregular até o
pouso. Argumentam ainda que a lei é antidemocrática, visto que
por mais hediondo que seja um crime, nada justificaria o abate.
Segundo os profissionais da aviação, as maiores vítimas dessa
lei seriam as crianças e as tripulações que poderiam ser usadas
como reféns pelos narcotraficantes.
Polêmica à parte, o fato é que as incursões ilegais sobre o
espaço aéreo brasileiro têm ocorrido sistematicamente. Estima-se
em mais de 4000 o número de vôos anuais. Centenas de pistas de
pouso clandestinas funcionam como suporte logístico ao tráfico e
ao crime organizado, estruturando uma extensa rede criminosa que
conecta a Amazônia às nações limítrofes como Colômbia, Peru e
Bolívia. Para o governo, portanto, trata-se de uma questão
simples: soberania nacional.
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Dividida, a Venezuela continua com Hugo Chávez
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 2 de
setembro de 2004.
Hugo Chávez
continuará na presidência da Venezuela até o início de 2007.
Venceu o referendo sobre a revogação do seu mandato. Caso
ganhasse o “sim”, uma nova eleição presidencial seria marcada em
trinta dias; mas os governistas, partidários do “não”, saíram
vitoriosos com 58% dos votos contra os venezuelanos que
desejavam o afastamento do atual ocupante do Palácio de
Miraflores.
A recente crise vivida pela República Bolivariana da Venezuela
está relacionada às decisões políticas do presidente Hugo Chávez
que acirraram a disputa entre os mais pobres e os mais ricos,
anti-chavistas. Detentora de uma realidade social trágica na
qual mais de 80% da população vive abaixo da linha de pobreza, a
Venezuela elegeu Hugo Chávez em 1998 com uma retórica agressiva
contra as elites.
Chávez passou a representar para essa massa de excluídos a
esperança num futuro melhor. Empenhado na implantação da
“Revolução Bolivariana” (referência a Simon Bolívar, herói da
independência), aprovou uma nova constituição e promoveu
reformas no poder Legislativo e no Judiciário. Com a receita do
petróleo, investiu em programas sociais, destinou verbas para a
construção de casas populares e expropriou terras para a reforma
agrária.
Acusado de governar o país apenas para os excluídos, passou a
ser atacado pela mídia, pelos empresários, proprietários de
terra, parcela da classe média e, principalmente, pelos
sindicatos ligados à estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).
Sofreu um golpe em abril de 2002, quando foi destituído do poder
com o aval de Washington. Mas os partidários de Chávez, com o
apoio dos oficiais do exército, resistiram e reconduziram-no à
presidência.
Estigmatizado como anti-americano, Hugo Chávez incomodou a Casa
Branca com sua visita a Saddam Hussein em 2000 e incomoda
atualmente em razão da sua simpatia pelo regime cubano. Alinhado
aos setores mais radicais da Organização dos Países Exportadores
de Petróleo (OPEP), defende a majoração dos preços do petróleo.
Mas para os venezuelanos, o “pai dos pobres”, como Chávez é
conhecido, prometeu que governará para todos.
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As
vitórias do
Brasil na OMC
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 19 de
agosto de 2004.
Uma série de
notícias referentes às vitórias do Brasil na OMC (Organização
Mundial do Comércio) tem sido veiculada pela imprensa. Primeiro
foi o embate do algodão, em seguida, a vitória contra os
subsídios agrícolas e, por último, o limite à exportação do
açúcar.
Os negociadores brasileiros apresentaram à OMC um recurso contra
os subsídios à produção de algodão que os EUA concedem a seus
produtores. O Brasil procurou mostrar que, além de reduzir os
preços internacionais do produto, essa ajuda viola as leis
internacionais de comércio, afetando diretamente a fatia de
mercado da produção brasileira. Estima-se que os subsídios
norte-americanos a seus fazendeiros alcancem US$ 300 bilhões por
ano.
No caso do açúcar, a vitória foi contra a União Européia (UE). O
Brasil, com o apoio da Tailândia e da Austrália, recorreu ao
Órgão de Solução de Controvérsias da OMC, argumentando que a UE
não cumpriu os compromissos de redução de subsídios à
exportação. Ao contrário, os países do velho continente chegaram
a exportar 4 milhões de toneladas acima do permitido. Segundo os
negociadores do Itamaraty, os prejuízos do Brasil nesse caso
podem alcançar a cifra de US$ 400 milhões por ano.
Como é possível notar, o auxílio dos países ricos a seus
agricultores é o grande inimigo do comércio internacional.
Contra essa assimetria nas relações comerciais é que a
diplomacia brasileira tem protestado, desde a Rodada de Doha (Qatar),
em 2001. Nessa Conferência Ministerial (instância máxima da
OMC), tiveram início as discussões sobre as regras para a
liberalização comercial, sem sucesso. O mesmo aconteceu na
reunião de Cancún, no México, em 2003.
Somente em julho, na reunião de Genebra (Suíça), houve avanços
nas relações entre os países ricos e pobres. Sob pressão do G20,
grupo dos países em desenvolvimento, liderados pelo Brasil e
pela Índia, o compromisso da eliminação total dos subsídios à
exportação e da redução das ajudas internas aos agricultores foi
firmado. Apesar de não ter sido fixada uma data, analistas
sustentam que o limite será 2010. Isso é uma vitória do
multilateralismo e dos 147 membros da OMC na luta pela
normatização do comércio entre as nações. Como afirmou o
ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim: "é o
começo do fim dos subsídios".
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Brasil comanda a missão de paz no Haiti
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 24 de junho de 2004.
Com cerca de
1.200 soldados, o Brasil assumiu o comando da missão de paz da
ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti. Trata-se da
primeira vez que o país lidera uma força de paz da ONU, que
contará também com a participação de Chile, Argentina e Uruguai.
A decisão do governo brasileiro gerou uma série de protestos no
país. Setores da esquerda consideram-na uma forma de
intervenção, já que o presidente Jean-Bertrand Aristide foi
deposto pelos EUA. Apesar das controvérsias, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva fez questão de ressaltar a importância da
missão: trata-se da contribuição do Brasil “para a paz no
mundo”. Para o presidente, a participação em forças
multinacionais faz parte da estratégia do governo brasileiro,
que deseja pleitear no futuro um assento permanente no Conselho
de Segurança da ONU.
Ex-colônia da França, o Haiti tornou-se o primeiro Estado
independente da América Latina ao proclamar sua independência,
em 1803. Sua história está marcada por intermináveis crises
políticas e sucessivos golpes de Estado. No início do século 20,
alegando quebra de compromissos, os EUA ocuparam militarmente a
ilha e, embora tenham oficialmente saído em 1934, jamais
deixaram de ingerir nos assuntos internos.
François Duvalier, o Papa Doc, assumiu a Presidência do Haiti em
1957 – por meio de um golpe militar e com o apoio dos EUA – e
instituiu uma das ditaduras mais sanguinárias da América.
Criou uma força paramilitar – os tonton-macoutes – para
neutralizar o poder do Exército e reprimir com violência
qualquer oposição. Na década de 1960, declarou-se presidente
vitalício e comandou o país com violência até a sua morte, em
1971. Seu sucessor, Jean Claude Duvalier – seu filho, o Baby Doc
–, assumiu o comando do país com apenas 19 anos. Denunciado
internacionalmente devido às violações dos direitos humanos,
tornou-se um fardo para a Casa Branca. Deposto por uma
insurreição popular em 1986, asilou-se em Paris.
As eleições de 1990 conduziram ao poder Jean Bertrand Aristide,
eleito com 67% dos votos e o apoio maciço da população pobre.
Empenhado em mudar o Haiti, investiu contra a corrupção, o
narcotráfico e a miséria. Mas o jovem sacerdote frustrou as
expectativas e foi deposto um ano depois. Sob nova intervenção
militar dos EUA, foi reconduzido ao poder no final de 1993.
Aristide reassumiu a presidência em 2001 num pleito boicotado
pelas oposições em que apenas 30% dos eleitores votaram. Com o
mandato sob suspeita, viu sua popularidade desabar até ser
deposto em março de 2004.
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O
Brasil e a controvérsia nuclear
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 29 de abril de 2004.
Sob suspeita de manter em sigilo
equipamentos das suas instalações nucleares, o Brasil tem sido
pressionado pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica)
a aceitar uma fiscalização mais abrangente em seu programa
nuclear. Inspetores da AIEA estiveram na INB (Indústrias
Nucleares do Brasil), localizada em Resende (RJ), e não tiveram
acesso à novidade do programa nuclear paralelo: a
supercentrífuga, responsável pela tecnologia de enriquecimento
de urânio.
Com a criação de um programa nuclear paralelo a partir de 1979,
a Marinha do Brasil passou a desenvolver um projeto para a
construção de um submarino com reator a propulsão nuclear. O
equipamento teria a função de monitorar o extenso litoral
brasileiro com uma autonomia maior que um submarino
convencional.
Segundo os responsáveis pelo projeto, as motivações para a
fiscalização de Rezende são devido ao fato de o Brasil, ao
enriquecer urânio, passa a fazer parte de um seleto clube de
nações detentoras desse conhecimento. Ou seja, um restrito grupo
de países que disputam o lucrativo mercado de combustível
nuclear: EUA, China, Rússia, França e Inglaterra, membros do
Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas),
além de Alemanha, Holanda, Israel, Índia, Paquistão e Japão.
O Brasil é signatário do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP)
desde 1998, mas não está disposto a assinar os "protocolos
adicionais" ou os mecanismos que autorizam inspeções mais amplas
sobre o programa nuclear brasileiro. Sob a alegação de
soberania, o país não aceita ser tratado como um membro do "eixo
do mal", como Coréia do Norte ou Irã, suspeitos de investirem na
fabricação de artefatos nucleares.
Tudo indica que as pressões dos inspetores da AIEA (ou dos EUA)
devem continuar para que o Brasil escancare a planta de Rezende.
Suspeita-se de endurecimento da política externa "unilateral" do
presidente George W. Bush, que, caso o Brasil recue e aceite a
vistoria, deve somar mais uma vitória na luta para manter-se na
Casa Branca.
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O MST e a "nova" reforma agrária ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 29 de
janeiro de 2004.
A revista inglesa The Economist
destacou, ao comentar uma publicação sobre o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra, que o MST é “imprescindível para
o projeto mais amplo de estabelecer a democracia e a justiça no
Brasil”. Posição semelhante à de João Pedro Stédile, líder do
MST, que, na revista Caros Amigos, defendeu que, sem um amplo
programa de reforma no campo, o Brasil não será de fato um país
democrático.
Stédile propõe um novo modelo de reforma agrária. Não o modelo
clássico baseado na distribuição de terras, em que os camponeses
recebem lotes individuais e cada família assentada busca
recursos para produzir. Segundo ele, o atual desenvolvimento das
forças produtivas exige uma “reforma de novo tipo”. “É preciso
desenvolver núcleos urbanos”, formar comunidades com várias
famílias para que se possa viabilizar uma infra-estrutura mínima
e garantir o que a cidade já possui: luz elétrica, água potável,
saúde e educação.
O segundo ponto desse modelo é que o “agricultor não é mais
produtor de alimentos, ele produz matéria-prima para a
indústria”. Então é necessário oferecer a esse produtor rural o
benefício da modernização, o que significa levar a indústria
para o campo. A agroindústria criará no campo novas
oportunidades de emprego para os jovens, pois vai necessitar de
mão-de-obra mais especializada.
Por último, é preciso pensar a reforma agrária associada à
educação. Somente com uma escola de qualidade no meio rural será
possível pesquisar práticas alternativas para a adoção de um
“pacote tecnológico que desenvolva e fomente técnicas agrícolas
adaptadas ao meio ambiente”. A partir desse novo modelo,
desenvolveriam-se novas práticas, reduzindo-se a utilização de
agrotóxicos – que seriam substituídos por processos menos
agressivos ao meio ambiente.
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Paramilitares depõem armas na Colômbia ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 1º de
janeiro de 2004.
Cerca de 800 combatentes do grupo
paramilitar Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), de extrema
direita, depuseram armas em Medellín. A iniciativa dos rebeldes
não representou o fim da AUC, que em conjunto com outras
facções paramilitares reúne mais de 13 mil homens em armas.
"Bem-vindos à vida civil", foi com essas palavras que o
negociador do governo recebeu as primeiras armas dos
ex-rebeldes. Alvaro Uribe, presidente da Colômbia, diz
acreditar que o gesto simbólico da AUC possa promover o diálogo
para colocar fim a essa longa guerra civil.
O conflito colombiano, que já dura quatro décadas, teve início
nos anos 60 com o surgimento da guerrilha marxista, as Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de
Libertação Nacional (ELN), partidários do projeto
revolucionário socialista tão em voga na América Latina à
época.
Em oposição à esquerda, para proteger os grandes proprietários
de terra da ameaça guerrilheira, surgiram nos anos 80 as
milícias paramilitares de extrema direita. Sob a sigla AUC,
várias facções treinadas pelo exército converteram-se numa
força militar paralela. Freqüentemente, foram acusadas de
praticar massacres contra camponeses suspeitos de apoiar os
guerrilheiros.
Para agravar ainda mais este cenário de conflito protagonizado
pela esquerda, por paramilitares e por forças do Estado, surgiu
nos anos 80 o narcotráfico, representado pelos cartéis de Cali
e Medellín. Acusados de oferecer contribuição financeira aos
grupos em conflito, os narcotraficantes se infiltraram na
estrutura do Estado.
Alinhado aos “falcões” da Casa Branca, Uribe conta com o apoio
financeiro e logístico dos EUA, para por fim aos 40 anos de
conflito. Numa ação conjunta com os norte-americanos, busca
implementar o Plano Colômbia orçado em US$ 7 bilhões, para
combater o narcotráfico e derrotar a guerrilha marxista.
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A
guerra política dos transgênicos ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 6 de
novembro de 2003.
Roberto Requião (PMDB), governador do Paraná, sancionou uma lei
estadual que proíbe o plantio e a industrialização de produtos
transgênicos no Estado. A nova lei proíbe também a utilização do
porto de Paranaguá (PR) para a importação e para a exportação de
organismos geneticamente modificados (OGMs). Maior produtor de
grãos do país, Mato Grosso também proibiu o plantio de soja
transgênica.
Recentemente, por meio de uma medida provisória, o governo
federal autorizou o uso de soja geneticamente modificada para a
safra de 2004. Agricultores gaúchos haviam importado da
Argentina sementes transgênicas e pressionaram o governo a
autorizar o plantio. Argumentam que o cultivo desse novo tipo de
soja tem o custo de produção reduzido em até 25%.
Ao introduzir um novo paradigma científico, a biotecnologia ou a
“tecnologia dos transgênicos” possibilitou a manipulação de
informações genéticas e a produção de OGMs. No caso da soja, a
empresa norte-americana Monsanto desenvolveu um novo tipo, a
Roundup Ready, resistente ao herbicida Roundup, comercializado
pela própria empresa.
Os argumentos daqueles que se opõem à política dos transgênicos
vão desde os cuidados com a saúde da população até as
preocupações com o equilíbrio do meio ambiente. Eles defendem
que não há estudos conclusivos que possam assegurar os
benefícios dessa nova tecnologia. Afirmam ainda que as
multinacionais, entre as quais a Monsanto, estão interessadas no
monopólio do mercado brasileiro.
Para solucionar a questão, o governo apresentou a lei de
biossegurança. A Comissão Técnica de Biossegurança (CTNBio),
composta por dez especialistas de “notório saber científico”,
será responsável pelo parecer técnico sobre os transgênicos que,
em seguida, será avaliado pelos ministérios do Meio Ambiente, da
Saúde e da Agricultura. A última palavra será do Conselho
Nacional de Biossegurança (CNB), formado por 12 ministros. A
manipulação OGMs sem autorização será considerada crime.
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Sérgio Vieira de Mello, um cidadão do
mundo
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 28 de
agosto de 2003.
A morte do
representante especial das Nações Unidas no Iraque, Sérgio
Vieira de Mello, vítima do atentado terrorista ao
quartel-general da ONU em Bagdá, atesta a insanidade e a
barbárie do terrorismo. Identificada como força de ocupação
papel desempenhado pelos EUA após invadirem o país sem o aval
do Conselho de Segurança, a missão humanitária das Nações
Unidas trabalhava pela paz e pela segurança, empenhada em
atenuar a dor e o sofrimento das vítimas da guerra.
Formado em Filosofia na França, o carioca Sérgio Vieira de Mello
não era propriamente um diplomata e não amealhou reconhecimento
internacional nas fileiras do Itamaraty. Era funcionário de
carreira da ONU desde 1969 e conquistou respeito e admiração ao
assumir desafios à frente dessa organização em missões de paz
pelo mundo.
Teve papel de destaque no processo de estabilização política da
Península Balcânica, principalmente na Guerra da Bósnia
(1991/92) e nos conflitos em Kosovo. Na sua mais notável
realização, comandou a reconstrução da ex-colônia portuguesa do
Timor Leste. Na invasão de seu território pela Indonésia em
1975, os timorenses foram massacrados pelas forças de ocupação.
A partir de 1999, como chefe das operações da ONU, Vieira de
Mello organizou em menos de três anos o país, que despontou como
a primeira nação do século 21.
Reconhecido por seu talento de negociador, contava ainda com um
invejável currículo de serviços prestados em Bangladesh, Sudão,
Chipre, Moçambique, Peru, Líbano, Camboja, Ruanda e Congo. Sua
luta pela paz e pelos direitos humanos o transformou numa
referência internacional e, por isso, era freqüentemente
lembrado como possível sucessor do secretário geral, o ganês
Kofi Annan.
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O Estatuto do
Desarmamento e o plebiscito de 2005
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 14 de agosto de
2003.
O Senado
encaminhou recentemente à Câmara um projeto de lei que proíbe o
comércio de armas no país e marca um plebiscito para outubro de
2005. O Estatuto do Desarmamento prevê que o porte ilegal seja
tratado como crime inafiançável, e a pena pode chegar a 12 anos
de reclusão. Polêmica, a votação no Congresso deverá mobilizar
lideranças partidárias favoráveis e contrárias ao projeto e,
principalmente, acionar o lobby dos fabricantes de armas.
Para os defensores do porte de arma, críticos do projeto, o
Estado e seu aparato policial não conseguem garantir a segurança
do cidadão. Argumentam, então, que privar o indivíduo do direito
de se armar para sua autodefesa é o mesmo que abandoná-lo à
mercê dos bandidos.
Já os que defendem o estatuto afirmam que o número de
homicídios no país – cerca de 49 mil com armas de fogo em 2002 –
comprova que cidadãos armados contribuem para o aumento da
violência. A posse de uma arma como garantia de segurança
transforma-se muitas vezes, por impulso ou descontrole, no
componente essencial que conduz à fatalidade.
Independentemente das divergências, o fato é que num país em
que, segundo estimativas recentes, circulam cerca de 22 milhões
de armas, apenas 10% das quais com registro, urge uma ação mais
firme e eficaz do Estado no combate ao tráfico de armas. Isso
sem esquecer que a criminalidade e a violência não podem ser
tratadas somente como itens da agenda policial. Exigem antes
políticas públicas que possibilitem a inclusão social das
camadas mais carentes da sociedade.
De qualquer maneira, se aprovado o Estatuto do Desarmamento, em
outubro de 2005 todos os brasileiros serão convocados a
posicionar-se sobre o comércio de armas no país. Você, caro
vestibulando, já pensou nisso?
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Os
números da Previdência no Brasil
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo
/ publicado em 26 de junho de 2003.
O tema da reforma
da Previdência tem provocado intensas discussões. Servidores
públicos reagem à proposta do governo de cortar privilégios das
aposentadorias. Ricardo Berzoini, ministro da Previdência
Social, responde: "É bom iniciar o debate da reforma lembrando
em que país estamos e qual o papel social da Previdência",
referindo-se à nossa péssima distribuição de renda.
Com o título de maior consumidor de dinheiro público, a
Previdência em 2002 provocou um déficit de R$ 72 bilhões nas
contas do governo. Os números assustam ainda mais quando se
analisa a forma como os benefícios foram distribuídos: R$ 18
bilhões para o pagamento de 20 milhões de aposentadorias do
setor privado e os R$ 54 bilhões restantes distribuídos entre os
3 milhões de beneficiários do setor público. Esse desequilíbrio
decorre do fato de que o benefício pago aos servidores privados
tem como teto R$ 1.561 e, nesse setor, a aposentadoria média é a
de R$ 350. Para quem trabalhou no setor público (Legislativo ou
Judiciário), a média recebida supera os R$ 7.000. Vale a
lembrança de que, no mesmo período, o orçamento da educação não
passou de R$ 18 bilhões.
A proposta de reforma apresentada preserva o "direito
adquirido", ou seja, a lei não alterará os benefícios já
conquistados. Mas insiste na "tributação dos inativos", a
contribuição dos aposentados que ganham mais que R$ 1.058.
Protegidos pela Constituição, os servidores pressionam pela
manutenção de seus privilégios. Esquecem-se, como assinalou o
ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que "ter
escravos já foi um direito adquirido e nem por isso se mantém
até hoje". Afinal, a Lei Áurea, que acabou com a escravidão,
cassou esse direito dos proprietários de escravos. Sob
protestos, é claro.
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Brasil participa pela primeira vez de
reunião do G8
“Não queremos o olhar piedoso dos países ricos. Necessitamos de
soluções estruturais que devem fazer parte de um conjunto de
mudanças na economia mundial. Esperamos coerência de nossos
parceiros mais ricos.”
(Lula no encontro do G8 em Evian, França, em 1º.06.2003).
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 19 de junho de
2003.
Segundo a imprensa, a participação do presidente Lula na reunião
do G8 foi um sucesso. Pela primeira vez, o Brasil foi convidado a
participar do restrito encontro dos países mais industrializados
do mundo. Em Evian, cidade francesa na fronteira com a Suíça,
Lula discursou por dez minutos, criticou o subsídio à
agricultura e propôs a criação de um programa “Fome zero”
mundial que seria financiado com um imposto sobre o comércio de
armas.
Além dos integrantes do G8, EUA, França, Inglaterra, Alemanha,
Canadá, Japão, Itália e Rússia, líderes de doze “países
emergentes” foram convidados, entre eles o do Brasil, China,
Índia, Arábia Saudita, África do Sul e México.
Esse encontro de países ricos e industrializados surgiu em 1975,
por iniciativa dos líderes Helmut Schmidt (Alemanha) e Valéry
Giscard d Estaing (França), que decidiram cooperar de modo
informal para aperfeiçoar a coordenação de suas economias.
Convidaram os EUA, o Japão e a Inglaterra e o encontro passou a
ser chamado de reunião do Grupo dos Cinco (G5). Novos sócios
foram admitidos, a Itália e o Canadá em 1986 (G7) e a Rússia em
1997, completando o grupo.
O G8 promove um encontro anual com a participação de chefes de
governo e de Estado, quando os líderes assinam um documento
final que deve nortear as ações dos países membros. A agenda do
encontro deste ano incluiu o combate ao terrorismo, a
reconstrução do Iraque, a tensão nuclear na Península Coreana, a
Aids e a economia mundial.
Em termos de resultados propriamente ditos, pouco se caminhou. A
proposta de Lula sequer entrou no documento oficial da reunião.
Se considerarmos a participação dos “países emergentes” que
puderam pronunciar-se diante dos líderes do G8, entretanto, já
houve um progresso. Lula não perdeu a oportunidade e aproveitou
para estabelecer contatos visando à criação do Grupo dos Três
(Brasil, África do Sul e Índia) para ampliar a cooperação
trilateral e fortalecer o grupo nos organismos internacionais.
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Néstor Kirchner: a nova esperança argentina
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 5 de junho de 2003.
Com a renúncia de
Carlos Menem, que se negou a disputar o segundo turno das
eleições, assumiu a Casa Rosada Néstor Kirchner, líder peronista
da Aliança Frente para a Vitória. Kirchner chega ao poder com
22% dos votos recebidos no primeiro turno disposto a inaugurar
uma nova era na política portenha: “proponho um sonho, quero uma
Argentina normal, com esperança e otimismo”.
Néstor Kirchner, 53 anos, é advogado e governou por 12 anos a
província de Santa Cruz na Patagônia. Contou com o apoio do
peronista Eduardo Duhalde e, como Menem, declara-se herdeiro
político de Juan Domingo Perón (1895-1974), o pai do “justicialismo”,
a revolução social em prol dos descamisados argentinos.
Menem, que abandonou o processo eleitoral, governou a Argentina
por uma década (1989-1999) No início, alcançou a estabilidade
econômica com a paridade dólar-peso e a redução dos gastos
públicos. Controlou a inflação e reestruturou o país segundo o
receituário neoliberal (privatização e abertura de mercado).
Reeleito, passou a enfrentar problemas com a estagnação
econômica, o alto índice de desemprego e denúncias de corrupção.
Seu sucessor, Fernando de la Rúa, renunciou antes de cumprir seu
mandato, sob protestos da população. Domingo Cavallo, Ministro
da Economia, determinou a limitação dos saques em contas
correntes, o “Curralito”, provocando a revolta do povo
argentino. Amotinados, promoveram saques e depredações e
exigiram a renúncia do presidente, que ocorreu em dezembro de
2001.
Eduardo Duhalde foi eleito pelo Congresso em janeiro de 2002 com
a missão de concluir o mandato de La Rua, estabilizar o país e
marcar novas eleições.
Néstor Kirchner, depositário da esperança argentina, assume o
país sem prometer o paraíso, mas disposto a revitalizar a
economia, lutar contra a corrupção e as desigualdades sociais.
Depois de visitar o Brasil e receber o apoio do presidente Lula,
Kirchner deixou claro que pretende fortalecer as relações
econômicas com o país, revigorar o Mercosul e investir na
integração da América Latina.
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Crise põe em risco a democracia na
Venezuela
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 31 de
outubro de 2002.
Recentemente, um
grupo de oficiais das forças Armadas da Venezuela, num
pronunciamento transmitido por todas a emissoras de TV privadas
do país, declarou-se em estado de “desobediência civil”.
Conclamavam seus pares a integrar uma força para exigir a
renúncia do presidente Hugo Chávez. "Chegou a hora de acabar com
essa tirania e essa ditadura", diziam. Em abril último, Chávez
já havia sido derrubado através de um golpe militar e
reconduzido à presidência do país dois dias depois por um
contragolpe.
Hugo Chávez chegou ao poder em fevereiro de 1999, eleito com
mais de 50% dos votos prometendo combater a corrupção, erradicar
a pobreza e reduzir os índices de criminalidade. Tratava-se de
uma verdadeira “”Revolução Bolivariana” em referência a Simon
Bolivar, herói da independência.
Ao assumir o comando, Chávez promoveu um plebiscito para
promulgar uma nova constituição. Com poderes especiais,
sancionou leis sem a participação do congresso e estabeleceu um
mandato presidencial de oito anos com direito a reeleição. Num
novo pleito presidencial, foi reeleito com mais de 55% dos votos
e garantiu seu mandato até 2007.
Sua retórica agressiva e seu estilo autocrático conduziram-no ao
isolamento. Pretendia erradicar a miséria e a corrupção, mas
precipitou o país numa grave crise política e econômica. Perdeu
a simpatia de parcela da classe média, da mídia independente e
da elite empresarial. Setores das Forças Armadas se rebelaram e
prometem resistir. A inflação disparou, o desemprego cresceu e o
PIB deverá recuar em 6% neste ano.
Chávez resiste e reafirma sua missão de romper os privilégios da
elite. Seus opositores exigem sua renúncia e o acusam de querer
transformar a Venezuela numa nova Cuba.
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IDH, o índice que
condena o Brasil
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 15 de
agosto de 2002.
O relatório anual
do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento),
edição 2002, divulgou que o Brasil ocupa a 73º no ranking do IDH
(Índice de Desenvolvimento Humano). Os dados coletados entre 173
países comprovam ainda a posição do Brasil entre as dez maiores
economias do mundo e a desconfortável posição de estar entre os
quatro países com a pior distribuição de renda mundial.
Criado pela Organização da Nações Unidas para medir a qualidade
de vida das populações, o IDH é composto por uma série de
indicadores econômicos e sociais. O desenvolvimento de um país,
segundo o índice, não pode ser avaliado considerando apenas os
números da sua economia. Por isso, além da renda per capita,
considera-se também a taxa de escolaridade, o analfabetismo
adulto e a expectativa de vida.
Segundo o relatório, cujos dados são de 2000, o Brasil melhorou
em relação aos índices de 1999. A renda per capita cresceu de
US$ 7.030 para US$ 7.625; a expectativa de vida passou de 67,5
anos para 67,7 e o percentual de adultos alfabetizados subiu de
84,9% para 85,2%. Mas há distorções graves na área da educação.
A taxa de escolaridade indica que 98% das crianças na faixa
etária do ensino fundamental estão matriculadas na escola, mas
apenas 15% continuam no ensino médio.
O Brasil está mais rico e mais desigual. O avanço no ranking de
desenvolvimento humano não repercutiu significativamente na
melhoria da qualidade de vida da população. A discrepância entre
a renda e os indicadores sociais denuncia a perversa
concentração da riqueza. Uma das formas de distribuí-la é
garantir educação de qualidade para todos, possibilitando uma
oportunidade para que homens e mulheres não apenas realizem seu
potencial como indivíduos, mas conquistem a verdadeira
cidadania.
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O Projeto Sivam e o
controle do espaço aéreo
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 8 de agosto de 2002.
Depois de muita
polêmica e denúncias de irregularidade, finalmente entrou em
funcionamento o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia). Em
seu discurso, na inauguração do Centro Operacional em Manaus, o
presidente Fernando Henrique Cardoso fez questão de reafirmar a
probidade do projeto, solidarizando-se com os oficiais que
cuidaram da sua implantação.
O Sivam começou a ser implantado em 1994, para monitorar uma
área de 5,2 milhões de Km2, (cerca de 60% do território
nacional). É um empreendimento de grande envergadura composto
por satélites, radares, aviões, estações de recepção de imagens
e mais de 200 plataformas de coleta de dados, que gera cerca de
2.000 empregos diretos.
Projeto que representou investimentos de US$ 1,4 bilhão, o Sivam
permitirá um efetivo controle do espaço aéreo amazônico,
possibilitando uma fiscalização mais eficiente de atividades
predatórias (desmatamento, queimada e garimpo), monitoramento
das fronteiras e combate ao narcotráfico.
Tratado como um projeto de segurança nacional, o Sivam foi alvo
de inúmeras denúncias. Foi previsto de início que ele não
poderia ser implantado por empresas estrangeiras, mas a escolha
ficou com a norte-americana Raytheon, que venceu a disputa
contra a francesa Thompson. O processo de licitação foi
considerado fraudulento em razão de um suposto favorecimento aos
americanos. Suspeita-se também de um compromisso em relação ao
destino das informações coletadas, que seriam compartilhadas com
os EUA.
Documentos oficiais levantados pela Folha confirmam que para os
EUA o Sivam significou uma vitória geopolítica. Suspeita-se de
que, por ser um instrumento útil ao seu programa de combate ao
narcotráfico, o sistema venha a tornar-se extensão do Plano
Colômbia. Nesse caso, a “Lei do abate”, que permite a derrubada
de aeronaves, sugere, no mínimo, cautela.
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Outra vez os ingleses no caminho da
Argentina
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 20 de junho de 2002.
Nestes tempos de
Copa do Mundo, quando argentinos e ingleses entram em campo,
além da grande rivalidade, é impossível esquecer a situação
atual do país vizinho, mas principalmente a disputa pelas Ilhas
Malvinas (Falklands, para os ingleses).
A atual crise pela qual passa nosso parceiro de Mercosul tem
suas raízes num passado não muito remoto. O retorno de Juan
Domingo Perón ao poder em 1973 e sua política de reatar as
relações com Cuba, ampliar o comércio com o bloco socialista e
associar a Argentina ao Movimento dos Países Não-Alinhados
causaram sério desconforto aos militares portenhos.
Com a morte do presidente, em 1974, assumiu sua vice, Isabelita
Perón, deposta dois anos depois por uma Junta Militar comandada
pelo general Jorge Videla. No poder, os militares promovem a
abertura de mercado, reduzindo drasticamente a capacidade dos
setores produtivos e iniciam a "Guerra Suja", perseguição
sistemática aos oposicionistas.
Num contexto em que a dívida externa passava dos 60 bilhões de
dólares, a crise econômica se aprofundava, os militares,
comandados pelo general Leopoldo Galtieri, decidiram pela
ocupação das Ilhas Malvinas em abril de 1982.
Estimulando o nacionalismo contra o domínio britânico,
procuravam desviar a atenção do povo da grave crise social e
econômica. Após 45 dias de luta e um saldo de mais de 700
mortos, a Argentina rendeu-se à superioridade militar britânica.
O entusiasmo nacionalista transformou-se então em indignação que
levou Galtieri à renúncia. Nas eleições de outubro de 1983,
encerrando sete anos de ditadura militar, elegeram Raúl Alfonsin
e restabeleceram a democracia.
Hoje, mergulhados numa crise sem precedentes, sonhavam que o
futebol de Batistuta, Veron e cia. pudesse resgatar o orgulho
nacional. Mas, a paciência estratégica dos britânicos aliada à
disciplina tática dos suecos expulsaram a Argentina do "grupo da
morte".
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O novo presidente da Colômbia
pede a participação da ONU
ROBERTO
CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 6 de junho de 2002.
Alvaro Uribe
Vélez, 49 anos, é o novo presidente da Colômbia. Eleito pela
coalizão de direita Primeiro Colômbia, com mais de 53% dos votos
válidos, promete combater o narcotráfico e endurecer na luta
contra as forças de esquerda. Vitorioso no primeiro turno, a
ascensão de Uribe marca o fim da hegemonia dos partidos Liberal
e Conservador que se revezavam no comando do país desde a
independência da Espanha no início do século XIX.
Cansado da violência, dos seqüestros e da latente guerra civil
que domina o país nas últimas quatro décadas, o povo colombiano
decidiu pelo discurso da força e do compromisso com o combate,
sem trégua, à guerrilha e à corrupção. Num pleito em que a
abstenção superou a marca dos 52% do eleitorado, o voto em Uribe
representou também uma reprovação ao governo de Andrés Pastrana,
que fracassou no diálogo com a guerilha.
Ex-prefeito de Medellin, senador e governador do Departamento
(Estado) de Antioquia, Alvaro Uribe, que assumirá em agosto,
defende a formação de uma milícia de 1 milhão de civis para
auxiliar as forças de segurança. Simpático à política de
Washington, conta com a participação dos EUA na reestruturação
do Plano Colômbia para combater as FARC (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia), os paramilitares da AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) e principalmente o narcotráfico.
"A Colômbia tem de derrotar a droga, senão não teremos condições
de acabar com o conflito", afirma.
Depois da vitória, Uribe moderou seu discurso. Declarou-se
favorável a uma mediação internacional liderada pela ONU para
retomar o diálogo com a guerrilha. Mas, difícil mesmo será
conjugar crescimento econômico, equilíbrio das finanças públicas
e aumento de gastos militares. Sem a ajuda da comunidade
internacional, a cooperação dos países vizinhos e a participação
das Nações Unidas, a missão de Uribe parece impossível.
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A política unilateral de George W. Bush
contra o Brasil
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S.Paulo / 16 de maio de 2002
Recentemente, os
EUA colocaram o Brasil na lista dos países que toleram a
pirataria. Segundo o USTR (escritório comercial
norte-americano), o país não aplica sanções sérias contra a
prática de violação dos direitos autorais. O Brasil pode vir a
sofrer retaliações comerciais ao ser incluído na "lista de
países que merecem atenção prioritária".
Outro episódio emblemático da difícil relação entre Washington e
Brasília foi a decisão do presidente George W. Bush de, para
proteger a indústria americana, impor cotas e tarifas de até 30%
sobre a importação de produtos siderúrgicos. Com essa medida, os
prejuízos do Brasil podem chegar a US$ 400 milhões por ano.
Iniciativas de Washington têm criado dificuldades, sobretudo para
a agenda brasileira de exportações. Sua nova lei agrícola, a Farm Bill, que concede subsídios à soja, causará sérios danos
aos produtores brasileiros. O Brasil ingressará na OMC
(Organização Mundial do Comércio) contra essa decisão.
O mais preocupante é que as crescentes divergências no campo
econômico têm avançado para a área política e diplomática. O
governo norte-americano exigiu o afastamento de Maurício Bustani
da Opaq (Organização para a Proibição das Armas Químicas).
Vinculada às Nações Unidas, a Opaq é responsável pela vistoria
dos arsenais de armas químicas. Bustani, que a dirigia,
determinou que todos os países entre eles os EUA deveriam ser
fiscalizados. A Casa Branca reagiu e forçou seu desligamento.
Talvez o episódio de Os Simpsons, exibido nos EUA, que
apresentou uma visão pouco elogiosa do Brasil, sirva como
metáfora da idéia que os americanos fazem de nós: macacos em
Copacabana, loiras luxuriosas apresentando programas infantis,
escolas ensinando macarena (dança colombiana) e brasileiros com
sotaque espanhol. Com tantos equívocos, impossível resistir à
idéia de que Bush tem algo de Homer.
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Aids e a guerra de
patentes com os EUA
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 6 de dezembro de
2001.
Brasil e os EUA
estiveram durante este ano envolvidos numa difícil disputa
relacionada ao tema das leis de patentes na área da saúde. Por
solicitação das autoridades americanas, foi aberto, no início do
ano, um painel (mecanismo de solução de controvérsias) contra o
Brasil e sua Lei de Propriedade Intelectual, na OMC (Organização
Mundial do Comércio), em Genebra.
O Brasil desenvolve, desde 1996, um programa nacional de
prevenção e combate à Aids, considerado pela ONU (Organização
das Nações Unidas) um modelo para o mundo. Esse programa prevê a
distribuição gratuita pelo Ministério da Saúde de um coquetel
anti-Aids, composto por doze drogas, oito delas produzidas no
Brasil. As demais são importadas, e o país gasta com esses
medicamentos cerca de 55% dos recursos do programa que é de R$
600 milhões por ano.
Com este programa a doença deixou de crescer e as mortes
decorrentes da Aids reduziram-se em mais de 50%. O Brasil foi
capaz de obter esses resultados porque, desde 1998, reproduz
fórmulas de remédios patenteados.
No painel da OMC, os americanos alegaram que a Lei de Patentes
do Brasil fere o Trips, o acordo internacional de patentes. O
Brasil, por sua vez, afirma que a quebra de patente está
prevista na legislação do país, que autoriza a licença
compulsória em casos de “emergência”, como o risco de uma
epidemia de Aids. Acrescenta ainda que a Aids não pode ser
vista como um negócio lucrativo.
O derradeiro golpe na posição dos EUA e dos grande laboratórios
foi dado em abril na Comissão de Direitos Humanos da ONU, que
aprovou a resolução proposta pelo Brasil reconhecendo o acesso a
medicamentos como um dos direitos humanos. A proposta foi
aprovada por 52 dos 53 membros da comissão. Os Estados Unidos se
abstiveram.
A pressão brasileira na defesa humanitária do programa de
prevenção e combate à Aids tem dado resultado. Isolados e
pressionados pelas ONGs e pela opinião pública, os EUA, em junho
último, decidiram retirar o processo apresentado contra o Brasil
na OMC. Além disso, os laboratórios, sob risco de ter mais
patentes desrespeitadas, decidiram finalmente firmar convênios e
oferecer medicamentos a custos mais baixos.
Os EUA, em razão da ameaça do bioterrorismo, têm levantado a
possibilidade de autorizar a quebra de patentes para a produção
de genéricos usados no combate à bactéria antraz. Um exemplo da
lógica de Washington: apenas quando interessa o direito à vida
se sobrepõe ao direito ao lucro.
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O Brasil e o Conselho de Segurança
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 22 de novembro de
2001.
Na abertura da 56ª Assembléia
Geral da Organização das Nações Unidas em Nova York, o
presidente Fernando Henrique Cardoso, depois de apelar para uma“
globalização solidária” e defender a criação de um Estado
Palestino, mencionou a questão da reformulação do Conselho de
Segurança. Segundo o presidente, o conselho “não pode continuar
a refletir o arranjo entre os vencedores de um conflito ocorrido
há mais de 50 anos”.
A Carta das Nações Unidas foi redigida por representantes de 51
países reunidos na Conferência de São Francisco em 1945. Manter
a paz e a segurança internacional, defender os direitos humanos
e as liberdades fundamentais, além de promover o desenvolvimento
dos países são os objetivos maiores da organização. Entre os
principais órgãos, estão a Assembléia Geral, principal órgão
deliberativo, o Conselho de Segurança, que arbitra os casos de
ameaça à paz e a Corte Internacional de Justiça, com sede em
Haia, na Holanda.
O Conselho de Segurança, que responde pela manutenção da paz
internacional, é composto por 15 países – cinco são membros
permanentes (China, EUA, Rússia, França e Reino Unido), com
poder de veto. Os demais são eleitos pela Assembléia Geral e
cumprem um mandato de dois anos. Trata-se do único órgão da ONU
cuja decisão deve ser acatada pelos 189 países membros.
Na condição de membros permanentes, os países vencedores do
conflito de 45 e mais a China, que ingressou em 1971, possuem a
prerrogativa de veto. Essa regra da “unanimidade das grandes
potências” confere ao grupo seleto poderes especiais, razão pela
qual o Brasil “reclama a ampliação do Conselho de Segurança”.
Não faz sentido, segundo o presidente, circunscrever a um grupo
tão restrito temas que são de interesse global.
Aclamado na Assembléia Nacional da França como um estadista, FHC
tem tido atuação expressiva nos fóruns internacionais. Crítico
dessa “globalização assimétrica”, exige a eliminação das
práticas protecionistas e uma participação mais ativa dos países
em desenvolvimento. Defendeu a criação do Tribunal Penal
Internacional e alertou sobre os riscos do fracasso da agenda de
Kyoto. Indiretamente, afrontou posições americanas.
Controvérsias à parte, é preciso reconhecer que o presidente tem
desempenhado um papel importante na condução da política externa
brasileira.
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O Brasil e a
Operação Condor
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo
/ publicado em 9 de janeiro de 2001.
Parece que o
passado recente do Cone Sul se recusa a ficar submerso. Em maio
último, foram encontrados em Assunção documentos timbrados do
Ministério do Exército do Brasil que comprovam o envolvimento de
militares brasileiros com a Operação Condor, um sistema de
cooperação, sediado em Santiago, entre os regimes ditatoriais do
Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil para
perseguir seus opositores nas décadas de 70 e 80.
Com o pretexto de impedir o avanço do “comunismo internacional”
no continente, vários golpes militares aconteceram: Brasil (64),
Chile e Uruguai (73) e Argentina (76). Naqueles tempos de Guerra
Fria, o centro dessa orientação geopolítica era o National War
College (NWC) em Washington. Para ampliá-la em direção à América
Latina, surgiu em 61, no Panamá, a Escola das Américas com o
objetivo de formar oficiais para as ditaduras do continente e
difundir os ideais de contenção presentes na Doutrina Truman
(47).
Alinhado à estratégia americana, o Brasil criou, no final dos
anos 40, a Escola Superior de Guerra (ESG), que desenvolveu, com
a participação de Golbery do Couto e Silva, as teses principais
da Doutrina de Segurança Nacional, baseada nas noções de
segurança e desenvolvimento. Segurança pressupõe a luta contra o
“inimigo interno”, o militante de esquerda.
E desenvolvimento significa a adesão a um modelo econômico de
integração ao mercado mundial capitalista. Norteados pela mesma
lógica, surgiram ainda o Serviço Nacional de Informação (SNI),
que controlava os passos de cada suspeito, e a Lei de Segurança
Nacional (LSN), para punir manifestações de oposição ao regime.
Na contabilidade dos mortos e desaparecidos, o Brasil sofreu o
menor número de perdas durante os anos do terror. Mas os
documentos secretos encontrados em Assunção e outros liberados
nos EUA comprovam que militares brasileiros participaram da
montagem da Dina, o serviço secreto chileno. O SNI deu cursos de
técnicas de interrogatório e tortura para oficiais chilenos.
Lamentavelmente, segundo dizem, chegamos até a exportar o famoso
“pau-de-arara.”
A Lei da Anistia de 79, quase “ampla, geral e irrestrita”,
pretendia encerrar esse período trágico da história brasileira.
Trouxe de volta os exilados e acabou beneficiando também aqueles
que matara | |