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América
do Norte
- ROBERTO CANDELORI
Estado, neoliberalismo e crise imobiliária
A era George W. Bush se aproxima do final
Hegemonia dos EUA
Afeganistão e
Iraque sob a ótica dos "falcões" de Bush
Bush anunciou
novas sanções contra Cuba
USA Patriotic Act e o fim da
privacidade
A
trágica memória de 11 de setembro
Os EUA e a nova Guerra do Golfo
Jimmy Carter recebe o prêmio
Nobel da Paz
George W. Bush prepara ataque
contra o Iraque
O poder dos EUA e o
antiamericanismo
George W. Bush e o combate aos
países do "eixo do mal"
EUA e o novo macarthismo
EUA, o “grande satã”
Tragédia
norte-americana
Vicente Fox e a nova Revolução Mexicana
Estado, neoliberalismo e crise imobiliária
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo
Antes de outubro de 1989, véspera da queda do muro de Berlim, estávamos no mundo da Guerra Fria, a ordem bipolar que surgiu depois da Segunda Guerra, em 1945. Naquela época, norte-americanos e soviéticos estavam separados por um intransponível muro ideológico, político, econômico e militar, cuja síntese eram os blocos, capitalista e socialista. Construído sob o paradigma da guerra, o Estado daquela época era forte -quase totalitário- em ambos os lados da antiga Cortina de Ferro, isto é, controlava os movimentos da política, da sociedade e da economia. Com um Estado forte, a política reinava soberana e assumia um poder hegemônico. Pensava o planeta e suas possibilidades como um tabuleiro dinâmico, cujas peças eram alteradas para ampliar áreas de influência e avançar sobre novos territórios, sempre sob o olhar cúmplice do poderio militar.
No entanto, esse modelo de Estado, estruturado sob os ditames da soberania e da doutrina da segurança nacional, não caberia mais no manequim do mundo que se avizinhava, a Nova Ordem Mundial. A crescente abertura dos mercados nos anos 90, com a globalização, exigia uma profunda transformação. Afinal, a nova conjuntura mundial, agora sob a soberania do poder econômico, demandava um modelo menos custoso e mais eficiente, capaz de focar suas prioridades nos serviços básicos à população: saúde, educação e transporte. Para melhor sintetizar esse novo modelo surgiu a expressão Estado mínimo, um Estado enxuto adequado aos novos tempos. Avanços significativos na área tecnológica trouxeram ao planeta uma nova dinâmica, marcada pelo crescente intercâmbio de informações, capitais e mercadorias. Entrávamos em um mundo globalizado, ou seja, submetido à soberania do mercado. A lógica era simples: quanto menor a interferência do Estado na economia, melhor o seu desempenho.
Ronald Reagan (1981-1989), nos EUA, e Margaret Thatcher (1979-1990), na Inglaterra, foram precursores daquilo que viria a ser chamado de neoliberalismo. Na época, seus críticos viam na supremacia da economia, essência da cartilha neoliberal, a fragilização do Estado e sua conversão num ente débil, sem força de combate perante o gigantismo do mercado..
Agora com a crise do setor imobiliário o tema volta à mesa, sobretudo depois que o Estado socorreu com vultosas somas o debilitado sistema financeiro. Perplexo diante do risco da quebradeira geral, Nicolas Sarkozy, presidente francês, profetizou, diante do silêncio dos neoliberais: "A ideologia da ditadura dos mercados e do Estado impotente morreram com a crise financeira".
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A era George W. Bush se aproxima do final
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo
Conduzido à Casa Branca por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, após uma eleição sob suspeita no Estado da Flórida, George W. Bush conquistou a presidência em 2000 ao vencer Al Gore, candidato do partido democrata. Ao assumir o comando do país em janeiro de 2001, Bush teve um início de mandato sem brilho, talvez ofuscado pela suspeita de fraude no processo eleitoral.
Com os atentados de 11 de Setembro de 2001, que atingiram as Torres Gêmeas do World Trade Center e o Pentágono, o presidente dos EUA transformou a luta contra o terrorismo no eixo central de seu governo. Ao se autodefinir como o "presidente da guerra", declarou como inimigo número um da América a rede Al Qaeda e seus seguidores comandados por Osama bin Laden.
Atuando de forma unilateral, isto é, sem o aval das Nações Unidas e da comunidade internacional, Bush liderou, em outubro de 2001, a invasão do Afeganistão sob alegação de que o Taleban, grupo fundamentalista que comandava o país, hospedava o líder da Al Qaeda.
Mais tarde, em janeiro de 2002, o chefe da Casa Branca, com o apoio do Congresso norte-americano, declarou guerra aos países do "eixo do mal": Coréia do Norte, Irã e Iraque. Proclamou-se paladino da luta contra o terror e promoveu a invasão do Iraque em março de 2003, sob a acusação de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e mantinha relações suspeitas com a Al Qaeda.
Amparado num clima de pavor gerado pela ameaça de novos atentados, o discurso intransigente de Bush, mesmo sob o bombardeio de denúncias dos abusos praticados por soldados norte-americanos na prisão de Abu Ghraib, se converteu no seu maior trunfo eleitoral, levando-o à reeleição contra o democrata John Kerry em novembro de 2004.
Com o recrudescimento da violência no Iraque, que levou Washington a aumentar o contingente de soldados em 2007, a popularidade do mandatário da Casa Branca começou a despencar. Caiu mais em virtude da arrogância de seu unilateralismo bronco, quando não reconheceu o empenho mundial na luta contra o aquecimento global, imprudência que agravou o sentimento antiamericano pelo planeta.
Embora seu mandato termine apenas em 20 de janeiro de 2009, quando passará a faixa presidencial ao democrata recém-eleito Barack Obama, George W. Bush desocupará a Casa Branca sem deixar saudades. Como diria o poeta, o melhor a fazer seria bater o portão sem fazer alarde e partir com a leve impressão de que já vai tarde.
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Hegemonia dos EUA
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 04 outubro de
2005.
A notícia causou
surpresa. Periódicos latino-americanos, inclusive a
Folha, divulgaram há pouco que os
EUA e o Paraguai haviam firmado um acordo para a instalação de
uma base militar norte-americana em solo paraguaio. A suposta
base seria construída próximo à tríplice fronteira, área,
segundo Washington, suspeita de abrigar extremistas islâmicos.
A história da hegemonia norte-americana no continente nos remete
a dois momentos importantes: primeiro a Doutrina Monroe de 1820,
cuja máxima, “A América para os americanos”, traduziu a
liderança sobre toda a América. Depois a política
intervencionista do “Big Stick”, o “grande porrete” do
presidente Theodore Roosevelt (1901–1909), que resultou numa
série de intervenções militares. Quase dois séculos depois,
George W. Bush deixa manifesto a pretensão de consolidar e
ampliar sua influência no sul da América.
Washington invade o novo milênio munido de uma nova estratégia
hegemônica: aposta suas fichas na consolidação da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) com vista a transformar o
continente num gigantesco mercado para a circulação de produtos
“Made in USA”. Sustenta a logística do Plano Colômbia, marcando
posição na luta contra o narcotráfico, e, num aviso dirigido à
Venezuela de Hugo Chavez, pressiona a OEA (Organização dos
Estados Americanos) para que monitore os regimes democráticos da
região.
Agora com um discurso disfarçado de cooperação militar, os
“falcões da Casa Branca” cravam suas bases no território do país
vizinho. Seus críticos mais perspicazes desconfiam de que, atrás
dessa retórica da defesa da democracia, do combate ao
narcotráfico e da luta contra o terror, o que de fato existe
nessa presença estratégica é o interesse nas riquezas da região.
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Afeganistão e Iraque sob a ótica dos “falcões” de Bush
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 27 novembro de
2003.
Conforme o
secretário de Estado norte-americano Colin Powell em recente
artigo nesta Folha, os EUA estão cumprindo com sucesso a missão
de levar a democracia ao Oriente Médio. Sob o título “Confiamos
no julgamento da história” (Mundo, 19/11), Powell relata que em
2001 os EUA avançaram sobre Cabul para derrotar os autores dos
atentados de 11 de setembro, a Al Qaeda e “afastar do poder o
regime despótico do Taleban”, que abrigava aos seguidores de
Osama bin Laden.
Segundo o secretário, “esse regime horrendo não existe mais”,
pelo menos não representa mais perigo. À frente do novo
Afeganistão, o presidente Hamid Karzai está implantando um novo
“sistema político baseado nos fundamentos da democracia”. Até o
final do ano, uma nova constituição será promulgada e encaminhará
para 2004 as primeiras eleições livres e democráticas do país.
No Iraque, a situação é um pouco diferente. Saddam Hussein “com
seu bando de assassinos” atacava com gás tóxico curdos e xiitas
e representava uma ameaça aos países vizinhos. “A ONU o advertiu
durante 12 anos”, mas Hussein insistia em apoiar o terrorismo e
desafiar o ocidente. “Bush não ignorou a ameaça e agiu”, mas “o
fez em cooperação com mais de 30 países”.
Para Colin Powell, tudo vai bem, exceto alguns imponderáveis,
como o ódio exacerbado dos “últimos” seguidores de Bin Laden e
Hussein. Sob o comando de Paul Bremer, a Autoridade Provisória
da Coalizão, ao lado do Conselho de Governo Iraquiano, tem se
empenhado na estruturação de um Estado democrático. Apesar dos
reveses, os alicerces da nova constituição já estão sendo
confeccionados e, em breve, os iraquianos estarão preparados
para “retomar a soberania do seu país”.
Simplista, a análise sintetiza a visão dos “falcões” da Casa
Branca. Sugere que nada está fora de lugar e que a estabilidade
democrática chegará com as eleições de 2004. Será que consideram
a hipótese de a maioria xiita chegar ao poder e transformar o
Iraque num Estado teocrático, hostil aos interesses dos EUA?
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Bush anunciou novas sanções contra Cuba
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 13 novembro de
2003.
Empenhado em melhorar a sua imagem perante o eleitorado
cubano-americano da Flórida, o presidente dos EUA, George W.
Bush, anunciou o endurecimento do embargo econômico contra Cuba.
No 135º aniversário do início das guerras de independência
contra a Espanha, Bush gritou em espanhol: "¡Cuba será pronto
libre de nuevo. Viva Cuba libre!"
As restrições, que, segundo a Casa Branca, pretendem "provocar
uma transição para a democracia" em Cuba, são um reforço ao
embargo econômico que já dura mais de 40 anos. As novas medidas
pretendem dificultar as viagens de americanos à ilha,
intensificar as transmissões de mensagens anticastristas da
Rádio e Televisão Martí e conceder mais vistos para cubanos que
desejem abandonar o país. Cria a "Comissão Presidencial para
Ajuda a uma Cuba Livre", sob a coordenação do secretário Colin
Powell.
O embargo econômico imposto pelos EUA contra Cuba desde os anos
60 determinou que todas as nações da América rompessem relações
diplomáticas com Havana. Posteriormente, outras restrições foram
impostas pela Casa Branca. Em 1992, a Lei Torricelli, que proibia
a entrada em portos norte-americanos, por 6 meses, de navios de
qualquer bandeira que tivessem atracado na Ilha. Em 1996, foi a
vez da lei Helms-Burton, que reforçou as sanções internacionais
contra Cuba e passou a impedir o ingresso nos EUA de
funcionários de companhias que mantivessem relações comerciais
com Havana.
Até mesmo a Lei de Ajuste Cubano, de 1966, que assegura direitos
especiais aos dissidentes que alcançarem os EUA, foi retomada
pela Casa Branca. Atento às eleições de 2004, Bush afirmou que
vetará qualquer iniciativa de flexibilização às restrições. A
influente comunidade cubana da Flórida agradece, afinal, pode
mais uma vez fazer a diferença na reeleição de Bush.
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USA Patriotic Act e o fim da privacidade
ROBERTO CANDELORI /
Especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 2 outubro de
2003.
Em nome da
segurança e da guerra ao terror, o governo dos EUA investe
contra os direitos individuais. Criado em outubro de 2001 pelo
presidente George W. Bush, o USA Patriotic Act visa facilitar a
captura de terroristas e, para tanto, permite aos órgãos de
segurança e de inteligência vasculhar a privacidade dos
cidadãos.
Literalmente, Patriotic Act significa “ato patriótico”, mas é
também a abreviação de “Provide Appropriate Tools Required to
Intercept and Obstruct Terrorism” (prover ferramentas necessárias
para interceptar e obstruir atos de terrorismo). Livre de
ordenação judicial, essa nova lei assegura aos agentes poder
para rastrear e-mails, vigiar o uso da internet e grampear
ligações telefônicas. Obriga bibliotecas e livrarias a informar
que livros buscaram determinados cidadãos e permite a detenção
de “suspeitos” por períodos prolongados.
Um sistema de códigos para classificar as pessoas que embarcarem
em aviões nos EUA será implantado em 2004. Sem que possam ter
acesso à informação, os passageiros serão identificados com as
cores "verde", "amarelo" e "vermelho", segundo o perigo que
possam representar para a segurança interna.
O governo Bush tentou aprovar o Tips, Sistema de Prevenção e
Informação sobre Terrorismo que foi rejeitado pelo Congresso.
Se aprovada, essa lei transformaria milhares de norte-americanos
em confidentes do governo. Eletricistas, carteiros, entre
outros, seriam convidados a colaborar como informantes da
polícia.
Essa prontidão para rastrear o inimigo nos remete a Guerra Fria,
quando o perigo era protagonizado pelo comunismo. A “ameaça
vermelha” levou o então senador Joseph McCarthy (1908-1957) a
comandar a perseguição aos suspeitos de pertencerem ao Partido
Comunista. Conhecido como Macarthismo, essa “caça às bruxas”
condenou artistas e intelectuais sob acusação de atividades
antiamericanas.
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A trágica
memória de 11 de setembro
ROBERTO
CANDELORI / Especial
para a Folha S. Paulo / publicado em 18 de Setembro de
2003
É inegável que
Osama Bin Laden e seus acólitos da Al Qaeda inauguraram uma nova
ordem planetária. Passados dois anos da trágica e surreal imagem
de Boeings explodindo contra as torres do World Trade Center, o
planeta ainda sofre o rescaldo da tragédia de 11 de setembro.
À época, as perspectivas eram diferentes. Encerrada a Guerra
Fria, o mundo respirava aliviado sob o funeral da bipolaridade
política, militar e ideológica. Das marretadas que colocaram
abaixo o muro de Berlim, emergia, segundo as palavras do
ex-presidente norte–americano George Bush, uma Nova Ordem
Mundial. Livres da corrida armamentista, países lançavam-se para
as disputas não mais bélicas, mas comerciais. Tinha início a
globalização, o movimento do comércio sem fronteiras e a livre
circulação de capitais. As palavras de ordem passavam a ser
abertura comercial, redução do déficit público e privatização:
era o nascimento do neoliberalismo. A idéia era substituir o
Estado anacrônico do período anterior por um Estado mínimo, ágil
e eficiente, centrado nas preocupações sociais.
Mas, após 11 de setembro, o caminho foi outro. Não fossem Bin
Laden e as ações terroristas, a nova pax americana ou hegemonia
dos EUA estaria voltada para a construção de um escudo
antimísseis, sua proteção contra a ameaça nuclear.
Todos os Estados suspeitos de abrigar ou de apoiar terroristas
passaram a se enquadrar no eixo do mal, inimigos declarados dos
EUA. George W. Bush ameaçou: "Ou vocês estão do nosso lado, ou
estão contra nós". Era o arcabouço da declaração de guerra ao
terrorismo, a doutrina Bush.
A Casa Branca assume, desde então à revelia do mundo, sua
política unilateral. Desconsidera os organismos internacionais e
reafirma o princípio da ação preventiva contra os Estados
fora-da-lei. Seu raciocínio é simples, o povo dos EUA foi vítima
do maior atentado terrorista da história, portanto cabe à nação
norte-americana caçar e punir os culpados.
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Os EUA e a nova Guerra do Golfo
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 30 de janeiro de 2003.
O “tempo está se esgotando”, declarou George W. Bush referindo-se
às concessões que a Casa Branca tem sido “obrigada” a fazer para
dar legitimidade à ação militar contra Saddam Hussein.
Irredutível, o presidente americano decidiu: atacará o Iraque
até o final de fevereiro. Para isso conta com o apoio irrestrito
da Inglaterra, porém tem desconsiderado as ponderações da ONU, a
oposição do mundo árabe e as pressões de países europeus.
Se considerarmos a capacidade bélica dos contendores, o confronto
será ainda mais desigual do que foi durante a Guerra do Golfo
(1990-1991). Na ocasião, a operação “Tempestade no Deserto”
contou com uma força de 32 países sob a liderança dos EUA, que
bombardeou o Iraque ininterruptamente por seis semanas. As
forças aliadas despejaram 54 mil toneladas de explosivos
(segundo se afirma, o maior ataque aéreo da história). Toda a
infra-estrutura do país foi destruída em cerca de 29 mil
incursões aéreas. Registrou-se um saldo de 100 mil mortos, 170
mil prisioneiros, enquanto as baixas americanas foram de 138
militares.
A ONU, que havia autorizado a operação após a invasão do Kwait
pelo Iraque, estabeleceu um embargo econômico contra Bagdá,
obrigou o país a aceitar uma comissão de técnicos para
fiscalizar seu arsenal bélico e determinou ainda a criação de
duas “zonas de exclusão”, destinadas a proteger xiitas e curdos.
Tudo indica que a operação “Tempestade no Deserto II” deverá
defrontar-se com uma força iraquiana ainda mais vulnerável
devido às sanções impostas pela ONU desde 1991. Para os EUA, a
certeza da vitória, com a deposição de Hussein, exige um plano
de ocupação, que deverá acomodar os interesses do povo curdo,
que reivindica seu Estado e dos xiitas do sul, aliados do Irã.
Ao mesmo tempo, elaborar um cronograma para o estabelecimento de
um Estado democrático. E, segundo se prevê, terá que fazer tudo
sozinho, se insistir em atacar o Iraque sem o aval da ONU.
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Jimmy Carter recebe o prêmio Nobel da
Paz
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 24 de outubro de 2002.
Agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, edição 2002, o
ex-presidente americano Jimmy Carter declarou ao saber da
premiação: "Não tenho nenhuma dúvida de que este prêmio leva o
povo a pensar sobre a paz e os direitos humanos.” Sem se
preocupar muito com a mensagem do laureado, o comitê responsável
pela escolha de Carter afirmou que a decisão deve ser vista como
uma “crítica à política” do presidente George W. Bush.
Democrata, Jimmy Carter é um pacifista e incansável defensor dos
direitos humanos. À frente do governo dos Estados Unidos entre
1977 e 1981, converteu-se no mediador do primeiro acordo de paz
entre um país árabe e Israel. O Acordo de Camp David de 1978,
sob a coordenação de Carter, selou uma paz duradoura entre
Israel e Egito. Assinado por Menagem Begin, premiê israelense, e
Anuar Sadat, presidente do Egito, possibilitou ao líder egípcio
a reconquista da Península do Sinai, território ocupado pelas
tropas israelenses desde a Guerra dos Seis dias em 1967.
Derrotado pelo republicano Ronald Reagan nas eleições de 1980, o
ex-presidente retornou à Geórgia e criou o Carter Center para
promover os direitos humanos, o avanço das democracias e a busca
de soluções pacíficas para conflitos internacionais.
Recentemente, protestou contra a resolução do Congresso que
autorizou a guerra contra o Iraque de Saddam Hussein. No início
deste ano (2002) esteve em Cuba, tornando-se o primeiro mandatário dos
EUA a visitar o país de Fidel Castro após a revolução de 1959.
Condenou o embargo econômico imposto pelos americanos e, talvez
inspirado pelo o patrono do prêmio, o filantropo sueco Alfred
Nobel, inventor da dinamite, quase detonou um artefato ao
sugerir ao líder cubano reformas democráticas e eleições diretas
na ilha.
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George W. Bush prepara ataque contra o
Iraque
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 22 de outubro de 2002.
O presidente
americano tem afirmado que pretende lançar uma ofensiva militar
para derrubar o ditador Saddam Hussein. Falta apenas definir uma
data, um cronograma de ataque, convencer os aliados e, entre
eles, alguns líderes do mundo árabe. Temerosa, Bagdá anunciou
que está disposta a aceitar a fiscalização das Nações Unidas
para o desarmamento. Mas exige a inclusão de observadores
“neutros”, no caso, não-americanos e militares. Bush afirma que
a iniciativa não é sincera.
Segundo a versão de Washington, Hussein estaria armazenando
armas de destruição em massa (químicas e biológicas) e
desenvolvendo artefatos nucleares. Razão para uma ação rápida e
urgente. A lógica da Casa Branca reafirma que a luta contra o
terrorismo passa obrigatoriamente pela deposição do líder
iraquiano. De antigo aliado, Hussein tornou-se o terrível vilão.
Explica-se: a revolução fundamentalista no Irã, em 1979, mudou
por completo o cenário da região. Na ocasião, com o apoio
logístico de Washington, Hussein invadiu seu vizinho deflagrando
a guerra Irã-Iraque (1980-1988). Uma vez fortalecido
militarmente, invadiu o Kwait em 1990, provocando a ira
americana. Os EUA organizaram então uma coalizão com a
participação de países árabes, para derrotar as forças
iraquianas. A Guerra do Golfo (1990-1991) devolveu a soberania
ao Kwait, mas não eliminou Saddam Hussein.
A deposição do ditador passou a ser uma questão de honra para a
família Bush. E os EUA novamente ameaçam invadir o Iraque.
Semelhante ao pai na Guerra do Golfo, W. Bush pretende
notabilizar-se como grande comandante americano, destruindo o
terrorismo e um de seus maiores representantes. Tudo indica que
desta vez o serviço será concluído.
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O poder dos EUA e o antiamericanismo
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 19 setembro de 2002
Deixou de ser novidade, pelo menos após 11 de setembro de 2001,
que existe um crescente sentimento antiamericano no mundo,
alimentado principalmente pelas posições unilaterais do
presidente George W Bush. Negou-se a ratificar o Protocolo de Kyoto (1997), abandonou a Conferência Mundial contra Racismo
(2001), boicotou o Tribunal Penal Internacional (TPI),
pressionou governos a não se comprometerem com metas na Cúpula
sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Rio +10 (2002), e
alinhou-se incondicionalmente à política de Ariel Sharon na
crise do Oriente Médio. Agora pressiona os países a apoiarem
seus planos para derrubar Saddam Hussein.
O papel de liderança mundial assumido pela Casa Branca teve
inicio no final da Segunda Guerra, quando o ex-chanceler
britânico Winston Churchill, em visita aos EUA em 1946, alertou o
presidente Harry Truman sobre o perigo da expansão comunista.
Uma “Cortina de Ferro” desceu sobre o continente, de um lado uma
Europa destruída pela guerra, do outro, nações gravitando sob a
orbita soviética. Abria-se o capítulo da Guerra Fria.
Dirigindo-se ao congresso americano em março de 1947, Truman
afirmou: “os povos livres do mundo olham para nós esperando
apoio na manutenção de sua liberdade” e concluiu, “se
fracassarmos na nossa missão de liderança, talvez ponhamos em
perigo a paz e o mundo”. Estavam lançados os pressupostos da
Doutrina Truman, base da supremacia dos EUA no pós-guerra.
Depois vieram o Plano Marshall (1947) e a Organização para o
Tratado do Atlântico Norte, a OTAN (1949), consolidando
econômica e militarmente sua liderança.
Agora, protagonizando outro combate aos “inimigos da liberdade”,
os EUA insistem nas decisões unilaterais. Arrogantes, fragilizam
as Nações Unidas e estimulam o sentimento antiamericano.
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George W. Bush e o combate aos países
do "eixo do mal"
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 28 de março de 2002.
Ao se dirigir aos
americanos em fevereiro, George W. Bush declarou ser preciso
combater os países que compõem o “ eixo do mal”: Coréia do
Norte, Irã e Iraque. A escolha dessa expressão nos remete à
aliança entre Alemanha, Itália e Japão na Segunda Guerra Mundial
e sinaliza um retrocesso no diálogo entre as nações.
Acusados de investir em armas de grande impacto, esses “países
renegados” representam, segundo a Casa Branca, uma ameaça real
à estabilidade global. Além da enorme repercussão, as
declarações do presidente reafirmam sua disposição em prosseguir
na “guerra contra o terror”. Mais do que ajudar, essa política
interrompe o processo de aproximação com o regime de Pyongyang,
iniciado por Bill Clinton em 2000, quando apoiou o encontro do
líder norte-coreano Kim Jong Il com seu vizinho do sul.
Compromete o esforço iraniano de aproximação com o ocidente ao
provocar a ira da população.
Bush dificulta a luta dos reformistas alinhados a Mohamed
Khatami e fortalece a posição dos conservadores sob a liderança
do aiatolá ali Khamenei, que afirmou que o verdadeiro “mal”
seria representado pelos EUA. Mesmo os aliados árabes, mais
próximos da América, que concordam que Saddam Hussein representa
um perigo, jamais aceitariam a hipótese de os EUA invadirem o
Iraque.
Estratégico, Bush pretende vincular o combate ao terrorismo ao
projeto de construção de um sistema de defesa antimísseis. A
idéia é associar os “países bandidos” aos grupos terroristas
organizados. Washington defende que os países fora da lei, além
de produzir armas nucleares, biológicas ou químicas, colocariam
essas armas à disposição de organizações terroristas. Trata-se
de um ardil para captar recursos em nome da segurança.
Compreende-se então o alerta: “Os Estados Unidos da América não
permitirão que os regimes mais perigosos do mundo venham nos
ameaçar com as armas mais perigosas do mundo”, ameaça Bush.
O fato é que após 11 de setembro os Estados Unidos se engajaram
numa cruzada radical contra o terror, mobilizando forças no
plano interno e, principalmente, definindo uma estratégia de
ação internacional. Do Afeganistão à Colômbia, a ordem é combater
o terrorismo. Saddam Hussein passou a ser o próximo da lista e
que se cuidem Muamar Kadafi da Líbia, Fidel Castro, de Cuba, e
Hugo Chavez, da Venezuela.
George W. Bush, que tem se esforçado para mostrar-se um
presidente forte e determinado na sua “guerra contra o terror”,
parece mais que nunca transformado no grande “xerife” do mundo.
Contudo essa atitude unilateral de Washington, assim como a
ameaça terrorista, é que coloca em perigo a estabilidade global.
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EUA e o novo macarthismo
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 8 de novembro de 2001.
Uma nova
legislação foi aprovada nos Estados Unidos com o objetivo de
combater o terrorismo. Polêmico, esse pacote emergencial procura
conciliar as liberdades e os direitos civis com a crescente
preocupação em relação à segurança. Para os críticos do projeto,
essa legislação ameaça os direitos fundamentais do cidadão. No
fundo, é uma lei contra imigrantes, alertam.
Justifica-se o temor. Durante o período da Guerra Fria, pós-45,
quando se intensificou a disputa, entre EUA e URSS, pela
hegemonia mundial, surgiu nos Estados Unidos o fantasma do
comunismo. O medo da "ameaça vermelha" mobilizou a sociedade
americana. Pânico semelhante ao que se vive hoje em relação ao
terrorismo. Joseph McCarthy (1908-1957), então senador, criou um
movimento que se caracterizou pela perseguição a pessoas
suspeitas de serem simpatizantes do Partido Comunista. Conhecido
também como "Caça às bruxas", o macarthismo atingiu,
principalmente, os meios intelectuais e artísticos.
No clima anti-soviético que se instalou nos EUA, os suspeitos
tinham seus nomes colocados numa lista negra. Acusados de
atividades antiamericanas, eram convocados para prestar
depoimentos frente à Comissão de Assuntos Antiamericanos.
Cercado de câmeras, em audiências públicas, o indiciado era
obrigado a retratar-se perante a nação. Alguns pressionados
delataram colegas. Milhares de americanos foram vítimas do
macarthismo, inclusive Charles Chaplin, que havia escolhido os
EUA como sua pátria, partiu para o exílio. Do lado
anticomunista, John Wayne, Walt Disney e Ronald Reagan (cowboy
que virou presidente) foram colaboradores ilustres da comissão.
Depois do ataques de 11 de setembro, a história pode se repetir.
Segundo a nova legislação, o governo está autorizado a realizar
vigilância eletrônica, deter imigrantes sem acusação e intervir
em instituições financeiras suspeitas de praticar lavagem de
dinheiro. Em tempos de guerra, o poder do Estado ganha contornos
mais autoritários.
Amparadas na histeria coletiva, autoridades pensam numa
estratégia para resolver o problema da morosidade nas
investigações. Propõem utilizar a tortura como método mais
eficaz para obter confissões. Combate-se o terrorismo,
sacrificando a democracia e os direitos. Na esteira dessa lógica
golpeia-se também o bom senso e a tolerância. Mais que
inocentes, sob os escombros do WTC ficou soterrada também a
utopia de um mundo mais integrado e solidário. Bem-vindos à
barbárie ou ao “Brave New World.”
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EUA, o “grande satã”
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 27 de setembro de 2001.
Manifestações
antiamericanas explodem por todo o Oriente. No Afeganistão, no
Paquistão, no Irã, em Beirute ou na Faixa de Gaza, entre
iranianos, afegãos ou palestinos. Multidões muçulmanas queimam
bandeiras americanas, entoam hinos e se preparam para o
confronto com o “grande satã”.
Não é difícil identificar razões para tanto ódio. Atraídos pelo
petróleo do Golfo Pérsico, os ingleses se instalaram na Pérsia,
atual Irã, no início do século XX. A Anglo-Iranian Oil Company
explorou petróleo com sucesso até 1951, quando o
primeiro-ministro Mossadegh ascendeu ao poder e nacionalizou a
indústria petrolífera. Refém do nacionalismo, o serviço secreto
britânico, com a participação da CIA, organizou um golpe de Estado
em 1953, levando ao poder o Xá Reza Pahlevi.
Homem forte do Irã, Pahlevi governou com o apoio dos EUA e
montou um consórcio internacional para a exploração do petróleo.
Criou uma polícia secreta, a Savak, destinada a combater a
oposição nacionalista. No início dos anos 60, implantou a
“Revolução Branca” com o objetivo de modernizar o Irã.
País de fortes contrastes, o Irã era dividido entre uma elite
dirigente sunita e mais de 90% composta por xiitas que
contestavam essa ocidentalização. Comandada à distância pelo
aiatolá Khomeini, expulso do país em 64, a população inicia uma
onda de protestos contra o regime derrubando o ditador Pahlevi
em 79. Com o triunfo da “Revolução Iraniana”, o aiatolá regressa
ao país e funda a República Islâmica com base nos princípios do
Alcorão.
Modelo para os países muçulmanos, o Irã estimulou o
expansionismo fundamentalista. Aterrorizado com o avanço da fé
islâmica, o “Grande Satã” se aliou ao Iraque no projeto de
contenção, forjando um novo líder para obstruir o avanço xiita:
Saddam Hussein. Credenciado pelos americanos e pelas monarquias
do Golfo, o líder iraquiano atacou durante oito anos o regime de
Teerã. Era a guerra Irã-Iraque (1980-1988) que deixou um saldo
de mais de um milhão de mortos e um rastro de ódio interminável
contra o gigante da América. Novamente nos anos 90, os EUA
voltaram ao Oriente – desta vez para destruir a pretensão
expansionista do ex-aliado. Com o aval da ONU, os americanos
derrotaram Saddam na Guerra do Golfo e impuseram um severo
embargo econômico aos iraquianos. Vitimados pelo terror, retornam
à região à procura de Osama Bin Laden. Agora em cena, a “Justiça
infinita” ou a operação vingança contra o inimigo número um da
América.
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Tragédia norte-americana
ROBERTO CANDELORI / especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 20 de setembro de 2001.
Inacreditável.
Dois dos maiores símbolos da América estavam em ruínas. O
Pentágono, em Washington, o centro da inteligência americana e
as torre gêmeas do World Trade Center, em Nova York, ícone maior
da superioridade econômica da América, viraram escombros.
Surpreendente que o terror tenha chegado tão próximo à ficção.
Inimigo sem rosto fundado na imprevisibilidade e no desprezo
pela vida de inocentes, o terrorismo representa um atentado
contra a humanidade.
Às primeiras imagens dessa catástrofe, já se apontavam os
prováveis suspeitos: árabes-islâmicos. Esquecia-se de que o
último atentado em Oklahoma, em 1995, tivera sido obra de um
cidadão americano, Timothy McVeigh, herói da Guerra do Golfo,
executado em junho.
Mas, dessa vez, o primeiro nome anunciado foi o de Osama Bin
Laden, considerado o inimigo número um dos EUA. Especula-se que
o milionário saudita esteja vivendo sob proteção dos radicais do
Taleban. George W. Bush prometeu retaliação. Tudo indica que o
Afeganistão será o primeiro alvo. Em seguida, deve sobrar também
para o Iraque e a Líbia de Gaddafi, apontados como financiadores
do terrorismo.
Acusada de apoiar Bin Laden, a milícia Taleban, que controla 90%
do Afeganistão, já teve a simpatia dos EUA. Quando as tropas
soviéticas chegaram a Cabul, em 1979, com o objetivo de colocar
no poder um regime pró-Moscou, os americanos armaram a guerrilha
muçulmana, os mujahidin, na luta contra a invasão comunista.
Convencionou-se chamar o episódio de “Vietnã soviético”, visto
que ficaram dez anos em território afegão, sacrificaram milhares
de jovens e saíram humilhados. Como os paradigmas da Guerra Fria
não valiam mais, americanos e soviéticos simplesmente
abandonaram o Afeganistão à sorte da miséria e do radicalismo do
Taleban.
O regime de Cabul promete resistir à ameaça americana e para
isso convoca uma guerra santa, uma Jihad do mundo árabe contra
os inimigos do Islã. Bush declara que os Estados Unidos estão em
guerra. Retaliação e vingança são os apelos do momento.
A política externa de Bush tem se pautado por medidas
unilaterais. Não referendou o Protocolo de Kyoto, abandonou a
Conferência contra o Racismo e, ao contrário de Bill Clinton, se
nega a assumir seu papel de mediador na crise entre palestinos e
israelenses. Agora, promete vingança. Impossível negar, a
intolerância trouxe o terror para Manhattam.
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Vicente Fox e a nova
Revolução Mexicana
ROBERTO CANDELORI /
especial
para a Folha de S. Paulo / publicado em 26 de dezembro de 2000.
Em agosto último,
o Partido Revolucionário Institucional (PRI) foi derrotado
depois de 71 anos de hegemonia no México. Vicente Fox foi eleito
no primeiro pleito livre e democrático desde o levante camponês
de 1910, liderado por Pancho Villa e Emiliano Zapata. A exemplo
da Revolução Mexicana que encerrou a ditadura de Porfirio Díaz
(1877-1911), a vitória do Partido da Ação Nacional (PAN)
representa uma nova revolução alcançada por meio do voto.
No poder desde 29, o PRI, que na sua origem era nacionalista e
revolucionário, a partir dos anos 50 se aproxima gradativamente
das teses do revitalizado capitalismo do pós-guerra. Sucessivas
gestões priistas foram marcadas por uma cultura de corrupção,
violência e paternalismo político. Freqüentemente acusado de
manter-se no poder através de fraude eleitoral, o partido tem
sido implacável com seus opositores e não poupou sequer os
estudantes no histórico “Massacre de Tlatelolco”, em 68. Com a
vitória de Fox se encerram mais de sete décadas de supremacia
política.
A queda na receita das exportações de petróleo no final dos anos
80 agrava a crise econômica. Salinas de Gortari assume em 88 e
inicia um processo de privatização e abertura econômica seguindo
à risca o receituário neoliberal. Em janeiro de 94, o México
adere ao Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) ao
lado de Canadá e EUA. Explodiu em Chiapas uma rebelião em que
índios camponeses do Estado mais pobre do país, sob a liderança
do subcomandante Marcos e do Exército Zapatista de Libertação
Nacional (EZLN), exigiram mudanças sociais e econômicas.
Com o país mergulhado num caos político, sob o risco de um
confronto armado, e pressionado pela alta dos juros nos EUA, os
investimentos de curto prazo começaram a sair. O pânico tomou
conta do mercado e, temendo uma crise mundial agravada pelo
“efeito tequila”, os americanos aprovaram um pacote de ajuda de
US$ 47 bilhões no início de 95. Era o início do desastre que
poria fim ao reinado do PRI.
Herdeiro de uma “ditadura perfeita” o caubói Fox, ex-executivo
da Coca-Cola, comprometeu-se a combater a corrupção, a construir
uma economia com “face humana” e restaurar a democracia.
Disposto a ampliar a distância em relação ao seu vizinho do
norte, credenciou-se como líder da América Latina. Difícil vai
ser a disputa com tantos candidatos: Chaves, Pastrana, Fidel,
FHC e sem esquecer os azarões do próximo milênio: Menem e
Fujimori. Isso é que é!!!
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